Políticos e influenciadores digitais promovem demissões e boicotes a eleitores de Lula; MPT registra mais de 530 denúncias
Após o pleito presidencial de 2026, mensagens de políticos e influenciadores digitais passaram a incentivar a demissão, a recusa de contratação e o boicote a trabalhadores e prestadores de serviço que votaram no presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O Ministério Público do Trabalho (MPT) acompanha as denúncias relacionadas a essa prática.
O órgão recebeu, até o momento, mais de 530 denúncias apresentadas depois da divulgação dos resultados eleitorais, totalizando 2.177 denúncias de assédio eleitoral registradas em 2026, o que corresponde a 24,3% do conjunto de reclamações do ano.
Segundo a legislação brasileira, é proibida a discriminação de trabalhadores por convicção ou opção política. A Justiça pode determinar a reintegração do empregado ou o pagamento de indenização em dobro. O MPT está avaliando a responsabilidade de terceiros que incitem tais condutas e orienta que as denúncias sejam feitas de forma sigilosa por meio do site institucional.
Em uma publicação, a vereadora de Londrina Jessica Ramos Moreno, conhecida como Jessicão (PL), escreveu: "Você tem uma empregada que é petista? Demita! Tem um funcionário que é petista? Demita!". O texto foi divulgado nas redes sociais e direcionado a empresários.
A influenciadora Josiflora, que possui mais de um milhão de seguidores no Instagram, publicou: "Não ajude petista: na fila da regulação, em pedido de emprego, em nenhum tipo de favor". Em vídeo adicional, ela orientou os seguidores a não oferecer água a petistas e afirmou que essas pessoas não deveriam receber ajuda.
O empresário e influenciador Rapha Hanzol, em vídeo, anunciou que demitiria sua melhor funcionária, justificando a medida como alinhamento à "cultura" da empresa. Ele declarou: "Hoje eu vou demitir a minha melhor funcionária. E essa será a decisão mais acertada do ano. Quando a pessoa não entende sobre a cultura, não respeita os nossos procedimentos, quando ela não se adequa ao nosso jeito de trabalhar, é importante que ela não trabalhe, que ela não contamine e que ela não esteja presente para que a gente comece a voltar a nos orgulhar do que produzimos". Em outra publicação, escreveu: "Não contrate quem odeia empresários. Quem gera empregos merece respeito" e acrescentou a frase: "Eu não tenho dúvida de que fomos roubados. Ponto".
Na terça‑feira, 27 de outubro, o MPT da região Rio de Janeiro requereu indenização de R$ 500 mil contra a deputada Jessica Ramos Moreno, argumentando que ela teria incentivado demissões por motivação política.
A influenciadora Livian Weber Asmar divulgou conteúdos com a expressão "Boicote aos petistas" e compartilhou uma lista de restaurantes e estabelecimentos de São Paulo que, segundo ela, deveriam ser evitados por consumidores conservadores.
Já a influenciadora Natássia Chamelete lançou campanha de boicote a pessoas identificadas com o PT. Em vídeo, afirmou que deixaria de consumir serviços de profissionais petistas, como médicos e cabeleireiros, e convidou seus seguidores a fazer o mesmo.
Embora os formatos das publicações variem, todas seguem a mesma linha: vinculam oportunidades de trabalho, relações comerciais e até ajuda cotidiana ao posicionamento político de trabalhadores, prestadores de serviço e consumidores.
De acordo com o procurador do MPT, "Nesses casos, o Ministério Público do Trabalho tem todo um regramento que impede esse tipo de discriminação do trabalhador pelo voto, pela opção política dele". O mesmo representante ressaltou que o assédio eleitoral pode se estender além do ato de votar, atingindo trabalhadores com ameaças, perseguições ou retaliações após o pleito.
O procurador acrescentou que "há uma violação que não atinge somente o direito daqueles trabalhadores e trabalhadoras atingidos, mas atinge toda a democracia, toda a sociedade".
Em alerta publicado na segunda‑feira, 26 de outubro, o MPT reforçou que o voto é livre e secreto, e que ninguém pode ser punido pela escolha feita. O órgão orientou que quem sofrer ou testemunhar pressão política registre a denúncia de forma remota e sigilosa, preservando provas como prints, áudios, mensagens e nomes de testemunhas.
Como já destacamos em cobertura anterior sobre a postura do Partido Liberal após a vitória de Lula, o debate sobre a legitimidade das eleições continua a gerar reações intensas nos diferentes segmentos da sociedade.
Com informacoes de G1 Política.

