Lições de uma imersão executiva na China: foco em custo, licenciamento e agentes de IA
Quando se pensa na China, costuma‑se oscilar entre admiração cega e rejeição absoluta; nenhuma das duas perspectivas ajuda quem toma decisões tecnológicas em empresas ocidentais. Em uma recente imersão executiva no país, percebi que a prioridade dos chineses é separar o que realmente funciona, evitando exageros e ilusões.
Uma mudança sutil, porém decisiva, foi observar que a atenção deixou de se concentrar na capacidade bruta dos modelos de IA para focar no custo por tarefa. Em apenas um ano, provedores chineses passaram de menos de 2% para mais de 45% do tráfego semanal em um dos maiores roteadores de modelos do mundo, demonstrando que viabilidade financeira e inteligência estão se desvinculando.
Desenvolvedores deixaram de escolher modelos apenas por benchmarks e passaram a otimizar por custo – por token e por capacidades específicas, como gerar código de qualidade ou lidar com contextos longos. Modelos abertos comparáveis circulam por cerca de um sétimo do preço dos equivalentes ocidentais de ponta, transformando a escolha de modelo em questão de margem, não de preferência.
O padrão de licenciamento também surpreende. A maioria dos laboratórios chineses abre a base e a camada intermediária dos modelos, mas fecha o topo, exatamente como fazem gigantes como OpenAI e Anthropic. A DeepSeek, com licença MIT integral e totalmente aberta, permanece como exceção.
Os agentes de IA ganharam categoria própria no âmbito regulatório. Em maio de 2026 a China publicou o primeiro marco regulatório dedicado especificamente a agentes de IA, tratando‑os como infraestrutura digital. No mesmo período, esses agentes chegaram a representar 20% do consumo de tokens de um roteador global de modelos em uma única semana.
Empresas que ainda planejam capacidade computacional pensando apenas no consumo humano correm risco de prejuízos, pois a escolha do modelo de IA implica aceitar limites definidos por outra empresa sob outra lei, exigindo cautela contratual.
Da imersão, quatro mecanismos podem inspirar qualquer organização. O primeiro é buscar um Cenário de Aplicação e não um Piloto. Um cenário nasce com quatro componentes definidos antes do início: problema delimitado, ambiente real onde ocorre, dados já existentes e resultado esperado e mensurável.
O segundo mecanismo é o roteamento: usar o modelo caro somente quando a tarefa exige e resolver o restante com recursos mais antigos, que ficam cerca de 80% mais baratos a cada nova geração de hardware. Treinar gera um gasto único; servir gera custo diário, e o roteamento decide o resultado financeiro.
O terceiro mecanismo consiste em usar meta de penetração como instrumento de gestão. O programa estatal chinês fixou meta acima de 70% de penetração de agentes em setores‑chave até 2027 e acima de 90% até 2030, mudando a pergunta de “qual IA comprar” para “qual percentual dos nossos processos já tem IA integrada”.
Por fim, há o impasse contratual ainda não resolvido: o cliente quer que o fornecedor responda pelos resultados, o fornecedor recua, e a definição de melhoria raramente coincide. Quem solucionar essa questão primeiro deve ganhar o mercado.
Dois exemplos ilustram bem a diferença de abordagem. Em Shenzhen, o mercado de componentes de Huaqiangbei ocupa cerca de dez quarteirões, com toda a cadeia de suprimentos a menos de duas horas de carro. Criar uma variação de produto ali acrescenta cerca de 20% ao custo, em vez de 80% a 100% em outros lugares; lançar cinco produtos custa quase o mesmo que lançar um, transformando o mercado em laboratório de testes. O paralelo com software é direto: quando o custo de deploy cai, decisões deixam de ser debatidas em reunião e passam a ser feitas via feature flag.
Em Pequim, o Instituto de IA, fundado em 2018 por universidades, pelo Estado e por Baidu, Alibaba, Tencent, ByteDance e Xiaomi – concorrentes que compartilham a mesma mesa de governança – já abriu mais de 200 modelos e acumulou mais de 1 bilhão de... (continua).
Não é a primeira vez que observamos a postura rigorosa da China em tecnologia; como já relatamos no recall de maçanetas digitais em veículos, o país impõe normas que afetam toda a cadeia produtiva, reforçando a importância de adaptar estratégias ao cenário local.
Com informacoes de Olhar Digital.

