Trabalho, dívida e apps: crédito caro aprisiona entregadores na Argentina

Por Tainá Ribeiro Alves em Rio Verde, GO 08/09/2026 09:40
Trabalho, dívida e apps: crédito caro aprisiona entregadores na Argentina

Foto: via G1

Fintechs e aplicativos de entrega na Argentina têm ofertado crédito de alto custo a trabalhadores que precisam de recursos para despesas como multas de trânsito e a liberação de motocicletas apreendidas, criando um ciclo de dívida que aumenta a dependência das plataformas.

Albert Quintero, entregador de 41 anos, recebe em média 70 mil pesos argentinos por dia (cerca de US$ 46). O custo para recuperar uma moto apreendida chega a aproximadamente 140 mil pesos (US$ 90), o equivalente a dois dias de trabalho, valor que a maioria não consegue arcar sem recorrer a empréstimos.

Os próprios aplicativos oferecem linhas de crédito, frequentemente com taxas anuais que ultrapassam 100 %. A PedidosYa disponibiliza empréstimos a 131 % ao ano, enquanto a carteira digital Personal Pay cobra cerca de 170 % ao ano.

Esse aumento de crédito ocorre em meio ao agravamento do custo de vida e à insegurança de emprego enfrentados pelas famílias argentinas sob a gestão do presidente Javier Milei. Segundo Mariano Biocca, diretor‑executivo da Câmara Argentina de Fintech, o número de empréstimos concedidos por fintechs saltou 20 vezes em sete anos, passando de cerca de 500 mil para 10 milhões.

Quase 6 milhões de argentinos têm dívidas em atraso superior a 90 dias, o que corresponde a quase um terço de todos os tomadores de crédito. A parcela de empréstimos familiares em atraso chegou a 12,8 % em junho, o maior patamar desde o início da série histórica em 2010, conforme dados do Banco Central. Quando Milei assumiu a presidência, no final de 2023, esse índice era de 2,8 %.

Especialistas apontam que a situação não se explica apenas pela conjuntura atual. Durante longos períodos de alta inflação, o valor real das dívidas diminuía porque salários e preços subiam mais rápido que o montante devido. Atualmente, com juros superiores à inflação, o peso das dívidas sobre o orçamento familiar aumentou significativamente.

Um estudo da consultoria Analytica revelou que os jovens são os mais vulneráveis ao aumento de inadimplência; eles conseguem recursos rapidamente por meio de carteiras digitais, mas não percebem os juros elevados que estão pagando. Enrique Tobani, participante de um protesto em agosto frente ao Ministério da Economia, destacou que “todo vizinho, familiar ou trabalhador com quem você conversa está passando pela mesma situação”.

Sindicatos, organizações de consumidores e grupos de defesa dos devedores têm cobrado do governo de Milei medidas de alívio financiadas pelo Estado, mas as autoridades afirmam que o endividamento das famílias é uma questão entre credores e tomadores e que o aumento dos atrasos é temporário, decorrente da expansão do crédito privado, que hoje representa 12 % do PIB argentino, muito abaixo dos cerca de 80 % observados no Brasil.

Autoridades brasileiras também manifestaram preocupação recente com o crescimento do endividamento das famílias, associado a linhas de crédito onerosas e critérios de concessão menos rigorosos.

Informações baseadas em reportagem da Reuters.

Com informacoes de G1.

Tainá Ribeiro Alves

Sobre o Autor: Tainá Ribeiro Alves

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