Hubble revela estrelas O ultra‑metálicas com ventos surpreendentemente fracos em galáxias anãs próximas

Por Cosmo Ricardo Nunes em Rio Verde, GO 25/09/2026 07:50
Hubble revela estrelas O ultra‑metálicas com ventos surpreendentemente fracos em galáxias anãs próximas

Foto: mzxPr/AFP

A cerca de 4,7 milhões de anos‑luz da Terra, na direção da constelação do Sextante, a galáxia anã irregular Sextans A abriga um pequeno grupo de estrelas azuis gigantes que parecem ter sido tiradas de outra era cósmica.

Essas estrelas, com massas dezenas de vezes superiores à do Sol, nasceram a partir de gás que contém menos de um décimo da quantidade de elementos pesados presente em nossa estrela.

Observadas pelo Telescópio Espacial Hubble na faixa ultravioleta, elas apresentam ventos de partículas muito mais fracos do que os medidos em estrelas equivalentes nas Nuvens de Magalhães, sugerindo um “fôlego” significativamente reduzido.

O estudo, publicado em 21 de setembro de 2026 na revista *The Astrophysical Journal Supplement Series*, foi liderado pela astrônoma O. Grace Telford, da Universidade de Utah, e introduz o projeto TEMPOS (Treasury of Extremely Metal-Poor O Stars), que reúne espectros ultravioleta homogêneos de 29 estrelas do tipo O distribuídas por seis galáxias anãs da vizinhança cósmica.

Todas as estrelas analisadas possuem metalicidade inferior a aproximadamente 20 % da abundância solar. O trabalho conta com a participação de 13 pesquisadores de instituições como o Space Telescope Science Institute, as universidades de Rutgers, Princeton, Notre Dame, Texas, Kiel e Heidelberg.

Os dados já foram disponibilizados publicamente, e a primeira rodada de resultados indica uma queda abrupta na força dos ventos estelares quando a metalicidade está abaixo de cerca de 10 % da solar.

Para os astrofísicos, “metal” engloba todo elemento mais pesado que hélio – oxigênio, carbono, nitrogênio, ferro, entre outros. Enquanto o Big Bang produziu quase exclusivamente hidrogênio e hélio, os demais elementos foram forjados no interior de estrelas massivas e liberados por explosões supernovas. Cada geração estelar enriquece o gás galáctico, de modo que a metalicidade funciona como um relógio químico: quanto mais pobre, mais próximo do material primordial.

No Sol, os metais correspondem a pouco mais de 1 % da massa total. Nas galáxias estudadas pelo TEMPOS, essa fração varia entre 3 % e cerca de 20 % desse valor solar, ou seja, entre 0,03 % e 0,2 % da massa.

Estrelas do tipo O ocupam o topo da classificação espectral de Harvard, estabelecida por Annie Jump Cannon no início do século XX. Uma estrela com massa superior a ~20 M☉ permanece na sequência principal como tipo O, exibindo temperaturas superficiais acima de 30 mil K (chegando a 40 mil K), luminosidades de dezenas de milhares a até um milhão de vezes a do Sol e vidas de apenas alguns milhões de anos.

Embora raras – para cada estrela O nascem centenas de estrelas menores – essas estrelas dominam a emissão luminosa das galáxias em formação. Esse desequilíbrio se traduz em um forte “feedback” (retroalimentação): os ventos estelares injetam energia mecânica no meio interstelar, a radiação ultravioleta ioniza nuvens gasosas e as supernovas impulsionam material que pode escapar da galáxia.

Em galáxias anãs, cujo potencial gravitacional é raso, esse feedback pode ser comparado a ferver água numa panela pequena com a chama de um fogão industrial – o conteúdo transborda facilmente.

Devido à sua temperatura extrema, estrelas O emitem a maior parte de sua energia no ultravioleta extremo, produzindo fótons com comprimentos de onda menores que 912 Å (91,2 nm) e energia de 13,6 eV, suficiente para ionizar átomos de hidrogênio.

Nos primeiros centenas de milhões de anos após o Big Bang, o hidrogênio intergaláctico era neutro e opaco a essa radiação. Fótons ionizantes escapando pelos canais criados pelo feedback das estrelas massivas começaram a ionizar o meio, culminando, até cerca de 1 bilhão de anos após o Big Bang, na quase total ionização do hidrogênio intergaláctico – o processo de reionização que iluminou o Universo primordial.

Com informacoes de Space Today.

Cosmo Ricardo Nunes

Sobre o Autor: Cosmo Ricardo Nunes

Cosmo é o olho do MOTNAF.NEWS voltado pro infinito. De lançamentos da NASA e SpaceX a buracos negros, eclipses, missões a Marte e as descobertas que mudam nossa visão do universo, ele traduz o que rola lá em cima numa linguagem que qualquer terráqueo entende. Se aconteceu no espaço, o Cosmo já está de telescópio apontado.