Honorato, da Anbima, afirma que governo ainda pode ajustar contas públicas se quiser

Por Tainá Ribeiro Alves em Rio Verde, GO 07/11/2026 11:30
Honorato, da Anbima, afirma que governo ainda pode ajustar contas públicas se quiser

Foto: via Estadão

Em encontro realizado na sexta‑feira, 30, o grupo da Anbima, com a participação de Fernando Honorato – economista‑chefe do Bradesco – analisou uma agenda factível de medidas de ajuste fiscal que podem ser adotadas sem comprometer grande parte das promessas de campanha, embora exista dúvida sobre a suficiência dessas medidas aos olhos do mercado financeiro.

Honorato ressaltou que a continuidade do processo de desinflação e, sobretudo, a possibilidade de o Banco Central voltar a cortar a taxa Selic dependem de sinais claros de compromisso com o arcabouço fiscal e com o equilíbrio das contas públicas, capazes de estabilizar o câmbio em torno de R$ 5,20 a R$ 5,50.

No diagnóstico coletivo, parte relevante da piora nas projeções de inflação decorre de choques sobre os quais a política monetária tem pouca influência, elevando o peso do ajuste fiscal na reancoragem de expectativas e na melhoria das condições financeiras. A projeção de inflação para o próximo ano subiu de 4,30 % para 4,90 %.

Os choques apontados incluem a eventual prolongação da guerra que eleva os preços do petróleo, os efeitos da Contribuição Social sobre Bens e Serviços (CBS) da reforma tributária, o fim da escala 6 por 1 e outros fatores externos.

O Banco Central só poderá dar sequência ao corte de juros previsto se o governo apresentar sinais claros de compromisso com o equilíbrio fiscal, o que ajudaria a estabilizar a moeda. Nesse cenário, apesar de a inflação de 2027 estar acima do centro da meta, o Copom pode focar no horizonte relevante e, possivelmente, efetuar cortes adicionais. Contudo, há quem defenda que a Selic permanecerá estável ao longo do ano, argumentando que a meta de inflação não será atingida em nenhum momento do horizonte.

O debate se divide entre economistas que acreditam que a convergência não ocorrerá tão cedo, descartando cortes, e aqueles que consideram que, com uma política econômica mais organizada – compromisso fiscal e câmbio estabilizado – ainda há espaço para redução da taxa de juros em 2027.

A projeção do grupo para o resultado primário de 2027 piorou em 0,10 ponto percentual. No lado das despesas, algumas promessas de campanha podem ser acomodadas, mas não todas. Entre as medidas já implementadas e consideradas para 2027 estão o Bolsa Família, a ampliação do limite do MEI, as “canetas emagrecedoras” e o Desenrola 3.0. O resultado primário projetado é de –0,4 % do PIB, praticamente estável em relação ao cenário atual.

O comitê não vê melhora nas contas públicas entre 2026 e 2027 e questiona se o governo conseguirá cumprir o arcabouço que prevê um superavit primário positivo de 0,5 % do PIB, com limite inferior de 0,25 %. Para alcançar o piso da meta, mesmo considerando os abatimentos típicos, o resultado projetado precisaria melhorar, pois o déficit de 0,40 % está distante do patamar necessário; com abatimentos, seria preciso um resultado negativo inferior a aproximadamente 0,10 % do PIB.

Assim, o grupo entende que o governo provavelmente não cumprirá o centro da meta nem a meta de resultado primário em 2027, o que explica as dúvidas sobre a estabilização cambial e a piora da projeção do câmbio. Ao mesmo tempo, há percepção clara de que, se o governo quiser, o ajuste ainda pode ser realizado, já que o Brasil não enfrenta uma situação de contas públicas insustentável, mas precisará apresentar as medidas concretas.

Dois pontos são destacados: primeiro, nem todas as promessas de campanha cabem no arcabouço fiscal; segundo, para cumprir a meta de primário em 2027 será necessário um esforço adicional, seja via corte de despesas discricionárias ou aumento de receita. A reunião deixou em aberto se essa agenda será efetivamente entregue, lembrando que o presidente já afirmou que não desvinculará o salário mínimo da Previdência.

Com informacoes de Estadão.

Tainá Ribeiro Alves

Sobre o Autor: Tainá Ribeiro Alves

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