Descoberta no Saara revela o mais antigo fragmento marciano já analisado na Terra

Por Cosmo Ricardo Nunes em Rio Verde, GO 01/11/2026 08:30
Descoberta no Saara revela o mais antigo fragmento marciano já analisado na Terra

Foto: via Space Today

No extremo norte do Mali, onde o deserto do Saara elimina quase todas as referências, permanecem as ruínas de Teghaza, antiga cidade que abastecia caravanas com sal durante séculos. O viajante marroquino Ibn Battuta registrou, em meados do século XIV, que casas e mesquita eram erguidas com blocos de sal.

Em 2022, prospectores que vasculhavam a mesma areia recolheram oito pedras acastanhadas, aparentemente banais, cujo peso combinado foi de 798,5 gramas. Na época, nada nas pedras sugeria uma origem extraterrestre.

Recentemente, o conjunto recebeu o nome oficial Teghaza 001 (ou Teg 001) e teve sua descrição completa publicada em 29 de outubro de 2026 na revista Science, na modalidade First Release. O estudo foi liderado pela cientista planetária Yang Liu, do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL), centro da NASA administrado pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech).

Os autores demonstraram que a rocha é ígnea, esfriou lentamente nas profundezas de Marte e se formou há pelo menos 4,1 bilhões de anos. A origem seria um fragmento da crosta primitiva marciana, proveniente de uma porção do manto com composição primordial nunca antes amostrada por outro meteorito.

A importância do achado se destaca ao considerar o acervo disponível. Marte não possui tectônica de placas em escala global, de modo que sua superfície conserva registros geológicos superiores a quatro bilhões de anos. Contudo, quase todos os meteoritos marcianos que chegam à Terra são rochas ígneas jovens, agrupados nas famílias SNC – Shergottitos, Nakhlitos e Chassignitos – cujas idades de formação não excedem 2,4 bilhões de anos. Essa situação seria como tentar escrever a história de uma cidade colonial observando apenas edifícios construídos nas últimas décadas.

Até agora, apenas dois meteoritos marcianos antigos haviam sido identificados. O Allan Hills 84001, encontrado na Antártida em 1984, é quase inteiramente composto por um único mineral e cristalizou há 4,1 bilhões de anos. O Northwest Africa 7034, apelidado de “Black Beauty”, foi descrito em 2013 na própria Science por uma equipe liderada por Carl Agee, do Instituto de Meteorítica da Universidade do Novo México; suas pedras formam um mosaico de minerais e fragmentos de diferentes origens, alguns com mais de 4,3 bilhões de anos. Ambos contribuíram para a reconstrução da juventude marciana, mas apresentam limitações: o primeiro tem pouca variedade mineral e o segundo não preserva uma rocha original inteira.

Teghaza 001 chega para ocupar parte desse vazio. A origem marciana foi confirmada pela proporção de isótopos de oxigênio – uma impressão digital química que separa rochas da Terra, Marte, Lua e asteroides em um gráfico comparativo de oxigênio‑17 e oxigênio‑18 versus oxigênio‑16. As oito pedras foram registradas no Boletim Meteorítico, catálogo oficial da Sociedade Meteorítica, que nomeia cada meteorito com o local de sua descoberta.

O conjunto totaliza 798,5 gramas; a maior peça, de 442 gramas, mede cerca de 10 centímetros de largura, aproximadamente o tamanho de uma toranja. A massa principal e outras pedras pertencem ao Museu de Minerais e Gemas do Maine, em Bethel, nos Estados Unidos, enquanto uma amostra de 22 gramas usada na classificação está no Instituto de Meteorítica da Universidade do Novo México. Cientistas interessados podem solicitar acesso a ambas as instituições, que avaliam cada pedido com base no mérito científico.

O artigo contou com a colaboração de quatorze autores provenientes do JPL, Caltech, Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), Universidade do Maine e Universidade do Novo México. Para decifrar a rocha, a equipe combinou imagens de microscópio eletrônico, mapas químicos de alta resolução e análises isotópicas realizadas com microssonda iônica, proporcionando um retrato detalhado da composição e da história geológica do fragmento marciano.

Com informacoes de Space Today.

Cosmo Ricardo Nunes

Sobre o Autor: Cosmo Ricardo Nunes

Cosmo é o olho do MOTNAF.NEWS voltado pro infinito. De lançamentos da NASA e SpaceX a buracos negros, eclipses, missões a Marte e as descobertas que mudam nossa visão do universo, ele traduz o que rola lá em cima numa linguagem que qualquer terráqueo entende. Se aconteceu no espaço, o Cosmo já está de telescópio apontado.