Dan Stulbach fala sobre vilões, preconceito e envelhecimento ao reestrear Shylock em “O Mercador de Veneza”

Por Tainá Ribeiro Alves em Rio Verde, GO 31/10/2026 18:30
Dan Stulbach fala sobre vilões, preconceito e envelhecimento ao reestrear Shylock em “O Mercador de Veneza”

Foto: via VEJA RIO

Dan Stulbach, ator paulistano de 57 anos, tornou‑se conhecido por interpretar vilões, como o advogado inescrupuloso Ademir em “Quem Ama Cuida”, personagem condenado por assédio sexual e preso em flagrante após agredir o filho, vivido por Chay Suede.

Embora colecione dezenas de papéis na TV, no teatro e no cinema — entre eles o amigo de Rubens Paiva em “Ainda Estou Aqui” — o público o reconhece sobretudo pelos antagonistas, e ele próprio afirma que prefere esses papéis porque provocam o espectador.

No sábado (7), Stulbach reestreia o espetáculo “O Mercador de Veneza” no Teatro Axia Casa Grande, uma releitura do clássico de Shakespeare ambientada nos anos 1990, na qual interpreta o agiota judeu Shylock. A montagem, em cartaz há quase dois anos, fez o ator refletir sobre a história de sua família, imigrantes poloneses perseguidos durante o Holocausto, conforme relatou em entrevista à VEJA RIO durante um intervalo de gravação nos Estúdios Globo.

Para fugir da caricatura, Stulbach busca uma leitura mais humana dos personagens, afirmando que todos são vilões e heróis em seus contextos. Ele destaca que a discussão do preconceito vai além dos judeus, abrangendo todas as minorias, e que “você pode encontrar muitos como ele no elevador do seu prédio”.

Ambientar a peça nos anos 1990 trouxe novas camadas: a época remete ao estouro da bolsa de valores, mantém a negociação de dinheiro em evidência e situa‑se em um período pré‑celular. Uma filmagem ao vivo funciona como segunda tela, o que, segundo o ator, reverbera principalmente na geração mais jovem, acostumada a dividir a atenção.

Stulbach viu “O Mercador de Veneza” pela primeira vez ao lado de Al Pacino na Broadway e nunca imaginou assumir o papel de Shylock. Ao interpretar o personagem, reconheceu gestos e reações de seu pai e avô, que viveram o antissemitismo de forma direta, iluminando “lugares dentro de mim que talvez mantivesse escondidos de forma inconsciente”. Essa experiência, segundo ele, também toca o público – judeu ou não – pela identificação com o não pertencimento e a compreensão do preconceito.

Consciente de seus privilégios na sociedade brasileira, o ator ressalta que o antissemitismo está inserido num contexto histórico de preconceito que atinge todas as minorias. Ele afirma que “qualquer situação que eu possa ter vivido é leve perto do que grande parte da população enfrenta diariamente”.

Em conversa informal durante o almoço com a humorista Tata Werneck, ela perguntou se ele já havia interpretado algum mocinho. Stulbach respondeu que já interpretou homens bons em “Senhora do Destino” e “Fina Estampa”, mas que “gosto mais dos vilões, de provocar quem está assistindo, questionar a ética, nossos comportamentos e as ideologias”. Ele acrescentou que não tem medo de ser confundido com seus personagens ou de perder seguidores no Instagram.

Ao voltar a encarnar um facínora em “Quem Ama Cuida”, Stulbach retoma a discussão da violência doméstica iniciada há mais de vinte anos em “Mulheres Apaixonadas”. Quando interpretou Marcos, o tema ganhou enorme repercussão porque, ao contrário dos casos típicos de homens bêbados de classes baixas, seu personagem era branco, rico e socialmente habilidoso, gerando choque. O ator foi muito assediado nas ruas por conta de Ademir. Poucos anos depois, foi promulgada a Lei Maria da Penha, gerando esperança de mudança, embora mais casos sejam revelados e a situação ainda esteja longe de ser erradicada. Ele aponta que discursos políticos e ideológicos tentam diminuir o papel da mulher de forma ainda mais retrógrada que há duas décadas.

O icônico “raquete” usado por Marcos contra a esposa reapareceu no atual folhetim das 9h. Stulbach esclarece que a ideia não foi sua, mas considerou interessante a inversão simbólica, pois “colocar a raquete nas mãos da mulher também é uma vitória, como uma reparação histórica”. Ele descreve a homenagem ao personagem como especial, lembrando quem era naquela época, “tão sem medo e cheio de vontades”.

Sobre o envelhecimento, o ator afirma que todo ator é “um guerreiro contra o tempo”, pois o tempo altera rosto e corpo, afetando os papéis. No Brasil, que ele descreve como um país etarista, o peso sobre as mulheres é muito maior, mas ele deseja “envelhecer bem”. “Faço exercício todo”, conclui.

Com informacoes de VEJA RIO.

Tainá Ribeiro Alves

Sobre o Autor: Tainá Ribeiro Alves

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