Zuenir Ventura, mestre do jornalismo brasileiro, morre aos 95 anos
O jornalista Zuenir Carlos Ventura morreu aos 95 anos, encerrando uma carreira marcada por colunas que abordavam a pandemia, o racismo e a violência no país.
Ele nasceu em 1 de junho de 1931, no município de Além Paraíba, Minas Gerais, e aos 11 anos mudou-se com a família para Nova Friburgo, na região serrana do Rio de Janeiro.
Durante a infância, Zuenir conciliou os estudos, exigidos pela mãe, com o auxílio ao pai no ofício familiar e trabalhou como office‑boy.
Na adolescência, recebeu uma bolsa de estudos no colégio em troca de dar aulas a crianças do ensino primário, período em que começou a nutrir o sonho de ser professor.
Aos 20 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro e cursou Letras Neolatinas na Universidade do Brasil, instituição que hoje integra a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Em 1988, lançou um livro que reconstrói os acontecimentos de um dos anos mais conturbados da ditadura militar, iniciando com a festa de réveillon na casa da crítica literária Heloísa Buarque de Hollanda, passando pelo assassinato do estudante Edson Luís, pela Passeata dos Cem Mil e culminando na decretação do AI‑5 em 13 de dezembro.
Após a chacina de Vigário Geral, Zuenir passou dez meses na comunidade afetada, acompanhou o surgimento da ONG Viva Rio e, a partir daí, analisou a divisão social da cidade, relacionando‑a a um processo histórico de segregação que remonta às reformas urbanas de Pereira Passos.
Uma série de reportagens sobre a morte do ambientalista Chico Mendes foi retomada em 2003 e transformada em livro dividido em três partes: reportagens produzidas no início de 1989, textos sobre a cobertura do julgamento e a seção “15 anos depois”, fruto do retorno de Zuenir ao Acre em 2003.
Na primeira parte, o autor discute os efeitos políticos, culturais e comportamentais de 1968; na segunda, reúne entrevistas com Caetano Veloso, César Benjamin, Fernando Gabeira, Fernando Henrique Cardoso, Franklin Martins, José Dirceu e Heloísa Buarque de Hollanda; e o livro ainda traz relatos sobre personalidades como Glauber Rocha, Betinho e Carlos Drummond de Andrade, sendo descrito por Zuenir como uma “alterbiografia”.
Em “Mal Secreto (Inveja)”, ele dedicou quase dois anos à investigação de um dos sete pecados capitais, visitando consultórios de psicanalistas, igrejas e terreiros de umbanda, resultando em uma obra que mescla ensaio, autobiografia e ficção.
Aos 81 anos, publicou seu primeiro romance, ambientado na década de 1940, no qual recuperou lembranças de infância, mas inseriu episódios fictícios e alterou nomes para evitar conflitos com parentes vivos, com o objetivo de retratar a hipocrisia daquele período.
Durante a faculdade, teve aulas com importantes nomes da literatura brasileira, como Manuel Bandeira, Alceu Amoroso Lima e Cleonice Berardinelli.
O professor Celso Cunha, da Faculdade de Jornalismo da UFRJ, convidou Zuenir para lecionar português, e o mestre Hélcio Martins o indicou para uma vaga de arquivista na Tribuna da Imprensa, onde rapidamente passou a atuar como repórter.
Ele afirmou que “tudo na minha vida aconteceu por acaso”, lembrando que, enquanto trabalhava no arquivo, Hélcio o incentivou a ir para a redação; naquele momento, Carlos Lacerda, diretor do jornal, procurava alguém para escrever um artigo sobre o escritor e filósofo franco‑argelino Albert Camus.
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Com informacoes de O GLOBO.

