Paradoxo da dívida pública brasileira: dívida menor que a de potências, mas custo de financiamento mais alto
O Brasil não figura entre as nações com maior dívida pública do planeta; Japão, Itália, Estados Unidos e França registram débitos superiores ao brasileiro, alguns ultrapassando 100% do Produto Interno Bruto (PIB).
Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), a dívida pública mundial rondou 94% do PIB em 2025 e deve alcançar 100% até 2029, evidenciando que o peso da dívida é um fenômeno global, não exclusivo do Brasil.
Entretanto, o tamanho da dívida representa apenas parte da equação. O fim do longo ciclo de juros baixos, iniciado após a crise financeira de 2008, fez com que os governos passassem a pagar mais caro para refinanciar seus passivos, ao mesmo tempo em que despesas com Previdência, defesa e programas sociais continuam a pressionar os orçamentos.
Esse contexto gera um aparente paradoxo: se economias desenvolvidas convivem com dívidas maiores que a brasileira, por que o Brasil não poderia adotar a mesma estratégia? Economistas consultados pelo Money Times ressaltam que não existe um limite universal; o risco varia conforme o custo dos juros, o ritmo de crescimento econômico, a moeda de emissão e, sobretudo, a confiança dos investidores.
Desde 2008, estímulos de governos e bancos centrais permitiram a expansão de gastos públicos sem que o serviço da dívida se tornasse um peso excessivo, graças ao crédito barato. O cenário mudou com o retorno da inflação e a elevação das taxas de juros globais. “O déficit sempre existiu e é crônico. Só que, agora, o sapato está apertando, porque as taxas de juros estão subindo no mundo todo”, afirma Marcelo Cabral, gestor de investimentos e fundador da Stratton Capital.
Em setembro, o Federal Reserve (Fed) elevou a taxa básica em 0,25 ponto percentual, situando‑a entre 3,75% e 4% ao ano, em resposta à inflação persistente – movimento já analisado em nossa cobertura de que os juros nos EUA podem chegar a 5%.
No Japão, o Banco Central também vem reduzindo gradualmente os estímulos adotados por décadas, enquanto outras economias avançadas mantêm políticas restritivas por períodos mais extensos, indicando que a era do dinheiro quase gratuito ficou para trás.
Para o economista‑chefe da ARX Investimentos, Gabriel Barros, o risco reside na combinação de um estoque elevado de dívida e um custo maior de rolagem. À medida que os títulos vencem, os governos precisam substituí‑los por novos papéis remunerados a taxas mais altas.
Quando o custo médio da dívida supera o crescimento da economia, o endividamento avança mais rapidamente que o PIB, exigindo um esforço fiscal maior para estabilizar a relação dívida/PIB. “Hoje, o estoque de dívida é maior e o custo de rolagem também. Isso cria uma dinâmica muito negativa para a própria trajetória da dívida”, explica Barros.
O aumento da emissão de títulos para financiar déficits intensifica a competição por recursos dos investidores. Para atrair compradores, os retornos precisam ser maiores, pressionando especialmente os juros de longo prazo – fenômeno observado tanto nos títulos brasileiros quanto nos Treasuries norte‑americanos, que têm batido recordes sucessivos.
Barros alerta que esse movimento encarece o financiamento de projetos, reduz investimentos produtivos e, a longo prazo, compromete a geração de empregos e renda, alimentando um ciclo vicioso: dívida eleva os juros, os juros prejudicam o crescimento e o crescimento reduzido torna a dívida ainda mais pesada.
Segundo projeções do FMI para 2026, a dívida bruta brasileira corresponde a 96,5% do PIB, posicionando‑se ainda abaixo de economias como Japão, Itália, Estados Unidos e França. Fonte: FMI – World Economic Outlook, abril de 2026.
Entretanto, as condições de financiamento divergem. Os Estados Unidos contam com a moeda de reserva mundial, o maior mercado de capitais do planeta e uma economia com maior capacidade de crescimento. “São três fatores: crescimento econômico, dólar e mercado de capitais doméstico”, resume Cabral, destacando que esses elementos garantem demanda pelos títulos do Tesouro americano e permitem ao país sustentar uma dívida maior.
O Japão, apesar de sua dívida superior a 200% do PIB, possui características particulares que sustentam seu modelo de financiamento, mas o Brasil ainda enfrenta desafios estruturais que tornam o custo do serviço da dívida mais oneroso que o de suas contrapartes desenvolvidas.
Com informacoes de Money Times.

