Tim Vickery critica redução de estrangeiros no Brasileirão e aponta falhas nas categorias de base
A recente decisão da CBF de diminuir gradualmente o número máximo de jogadores estrangeiros no Brasileirão — de nove para cinco, com a meta de 2030 — reacendeu o debate sobre como melhorar a formação de atletas no país. O jornalista inglês Tim Vickery, que escreve para a Trivela, analisou a proposta na décima segunda edição do programa "Futebol em Contexto", que também abordou a nova grade fixa de horários para o campeonato e a gestão de Samir Xaud.
Vickery foi rápido ao contestar a ideia de que a restrição de estrangeiros trará benefícios diretos à Seleção brasileira. Segundo ele, a maior parte das federações ao redor do mundo já apresenta um descolamento entre o campeonato nacional e a seleção, e o Brasil não seria exceção. Ele citou a Premier League como referência, mas ressaltou que os dois principais jogadores da Inglaterra — Jude Bellingham e Harry Kane — atuam fora da liga local.
O colunista reconheceu, porém, que há um argumento sólido para a redução: o envelhecimento dos elencos no Brasileirão. Vickery apontou que a idade média dos jogadores tem aumentado, o que reduz a intensidade dos jogos. Como exemplo, mencionou a Colômbia, onde os clubes são compostos majoritariamente por atletas jovens. Ele sugeriu que, se a medida fosse adotada, o limite de cinco seria excessivo, propondo sete como número mais equilibrado.
Para Vickery, a raiz do problema está nas categorias de base. Ele destacou que os treinadores das divisões inferiores são avaliados pelos títulos conquistados, e não pelo desenvolvimento técnico dos atletas, o que gera escolhas táticas voltadas ao curto prazo. Esse modelo de incentivos, segundo ele, impede que os clubes invistam na formação integral dos jovens.
Como ilustração, Vickery rememorou as últimas edições do Sul‑Americano Sub‑20, vencidas pelo Brasil sob o comando de Ramon Menezes. O técnico montou a equipe para ser fisicamente resistente, capaz de enfrentar nove partidas em três semanas, sem priorizar a posse de bola. Vickery enfatizou que a base nunca deveria ter como objetivo principal ganhar troféus, mas sim formar jogadores.
O jornalista também trouxe à memória uma palestra do diretor da La Masia, a famosa escola de base do Barcelona, dirigida a técnicos brasileiros. O diretor ressaltou que, desde o início do processo até o Barcelona B, o resultado é secundário; o foco é criar jogadores. Vickery recordou que Mano Menezes, então técnico da Seleção, reagiu dizendo que no Brasil não se pode pensar assim, pois os projetos são individuais e não coletivos.
Para comparar diferentes realidades, Vickery analisou a situação da Inglaterra e da Escócia. Enquanto a internacionalização da Premier League elevou o nível dos jogadores ingleses, na Escócia a mesma dinâmica resultou em um declínio, já que os clubes optam por contratar jogadores baratos de países como a Noruega em vez de investir na formação local. Ele alertou que o Brasil ocupa uma posição intermediária: a importação de talentos de alto nível, como Jhon Arias, do Fluminense, traz benefícios ao convívio, mas a contratação de jogadores medianos apenas por custo pode prejudicar o desenvolvimento.
Em síntese, Vickery conclui que a simples redução do número de estrangeiros não resolverá os problemas estruturais do futebol brasileiro. Investir em projetos de base, mudar o modelo de avaliação dos treinadores e evitar a contratação de mediocridade são, para ele, as verdadeiras soluções. Não é a primeira vez que o portal fantom.news discute desafios estruturais no futebol nacional, como já analisamos na cobertura da final do Brasileirão Feminino que estabeleceu recorde de público.
Com informacoes de Trivela.

