Projeto de livro sobre a Independência do Brasil tem revisão censória comandada por deputado
Durante as comemorações do Bicentenário, foi criado o blog “Independências do Brasil”, com o objetivo de divulgar interpretações plurais sobre a Independência, envolvendo diferentes pessoas e grupos além dos personagens tradicionais.
Os textos, curtos e publicados semanalmente por historiadores, foram rapidamente adotados em salas de aula, demonstrando alta aceitação e valor pedagógico.
No final de 2023, o sucesso do blog culminou na proposta de transformar o conteúdo em um livro para a editora da Câmara dos Deputados; a proposta foi aceita, os direitos autorais de 57 autores foram cedidos e o volume foi finalizado em meados do ano passado, com ISBN e ficha catalográfica para as versões impressa e digital.
Às vésperas do lançamento, uma nova rodada de revisão foi solicitada por uma comissão presidida pelo deputado Lafayette de Andrada (PL‑MG). A comissão, que se referiu às mudanças como “intervenções”, exigiu alterações substanciais no texto.
Entre as exigências, estava a retirada do termo “ditadura” ao referir‑se ao governo de 1964 a 1985, devendo ser substituído por “regime militar”. Também foram solicitados cortes que suavizariam a descrição de ações do Estado, como a eliminação de referências ao desprezo histórico contra povos indígenas, a remoção de menções às pretensões expansionistas do Brasil e a supressão de trechos sobre os “gritos dos excluídos” que reivindicam participação.
Essas alterações impactam especialmente as passagens que tratam das comemorações dos 150 anos da Independência, realizadas em 1972, quando a chegada dos restos mortais de D. Pedro I ao país foi celebrada em um contexto que misturava exaltação monárquica e apoio ao regime militar então no poder.
Os historiadores e a sociedade civil classificam a iniciativa como censura ideológica, lembrando que a própria Casa Legislativa foi encerrada duas vezes, sob o AI‑2 e o AI‑5, e alertam que a tentativa de reescrever a história representa um risco à memória democrática.
Os autores – professores André Roberto Machado e Andréa Slemian, da Universidade Federal de São Paulo, e Claudia Chaves, da Universidade Federal de Ouro Preto – declaram que não aceitarão as modificações impostas.
O texto original foi produzido pelo projeto Irineu, iniciativa de inteligência artificial do GLOBO, com toda a produção supervisionada por jornalistas.
Com informacoes de O GLOBO.

