“Não precisa cortar; parar de aumentar o gasto público seria suficiente”, diz Marcos Lisboa

Por Tainá Ribeiro Alves em Rio Verde, GO 05/11/2026 20:00
“Não precisa cortar; parar de aumentar o gasto público seria suficiente”, diz Marcos Lisboa

Foto: via VEJA

Marcos Lisboa, economista que já ocupou a presidência do Insper e foi secretário de Política Econômica no primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, aponta que o maior desafio da economia nacional não decorre exclusivamente do atual governo, mas de um problema estrutural que deve ser enfrentado com urgência no próximo mandato do petista: a baixa qualidade das políticas públicas, que falham, desorganizam as contas públicas e, mesmo assim, são renovadas.

Para melhorar esse cenário, Lisboa sugere a criação de uma agência independente de avaliação de políticas públicas, inspirada na Comissão de Produtividade da Austrália, que teria a função de analisar, revisar e aperfeiçoar programas governamentais.

Ele também faz uma analogia entre a proposta de derrubar a taxa Selic, defendida recentemente pelo economista André Lara Resende, e a defesa da cloroquina feita pela ex‑presidente Jair Bolsonaro durante a pandemia.

André Lara Resende, um dos arquitetos do Plano Real, propôs reduzir a taxa básica de juros de 13,75% ao ano para 7,5% ao ano em doze meses, criar um Conselho Fiscal e Monetário Nacional para coordenar metas fiscais e monetárias e utilizar as reservas internacionais para conter eventuais pressões cambiais. A ideia ganhou força após rumores de que teria sido apresentada a Lula como parte da agenda do próximo mandato, gerando divisão entre economistas.

Na quarta‑feira, dia 4, o Comitê de Política Monetária (Copom) interrompeu o ciclo de cortes iniciado em março e manteve a Selic em 13,75% ao ano.

Ao contrário de Resende, Lisboa defende que a solução para os juros elevados está em interromper o crescimento do gasto público em relação à arrecadação, e não em cortar a taxa de juros.

Entrevista – Pergunta: Qual é o principal problema econômico que o governo Lula precisará enfrentar no quarto mandato?
Resposta de Lisboa: O problema principal não é deste governo, mas estrutural: a baixa qualidade das políticas públicas. Apesar de gastos elevados em políticas sociais e de desenvolvimento, o país não entrega o que a sociedade espera. O aprendizado dos alunos é muito pior que o de outros países emergentes. Gastamos imensamente com políticas de desenvolvimento que fracassam. Essa dificuldade de avaliar, refazer e aperfeiçoar a política pública é, para mim, o grande desafio. O efeito colateral é a questão fiscal: a política fracassa, e a gente vai inventando novas medidas na mesma linha e igualmente fracassadas — nem melhora a qualidade da política pública nem arruma as contas.

Entrevista – Pergunta: A questão política interfere nessa ineficiência? Por exemplo, a influência do Congresso no orçamento?
Resposta de Lisboa: É uma dor de cada vez. Claro que há temas relevantes com o Congresso — as emendas, o mau uso dos recursos públicos, a falta de avaliação do que é feito. Isso claramente é um problema. Mas vamos começar pelo problema original: o setor público, o Executivo brasileiro, não avalia as políticas públicas de forma adequada — e não faz gestão. Assim, temos programas como o Minha Casa, Minha Vida 1 e Minha Casa, Minha Vida 2, mas o déficit habitacional permanece próximo a 6 milhões de moradias há 18 anos. O governo lançou a Sete Brasil, plataformas de conteúdo nacional para extrair petróleo, que se mostraram um fracasso, gerando 300 bilhões de reais em subsídios — não crédito — a empresas brasileiras. O programa de auxílio à indústria automobilística também não deu certo, mas foi renovado. A Zona Franca de Manaus, a Sudene e o Banco do Nordeste são mais exemplos de políticas públicas que fracassaram no Brasil, embora raramente sejam debatidas.

Entrevista – Pergunta: Aparecem sempre “vigaristas de plantão” propondo teses alternativas para reduzir os juros. Por que isso acontece?
Resposta de Lisboa: Porque há uma cultura de buscar soluções simplistas que não têm respaldo empírico. Comparo isso ao que Bolsonaro fez ao defender a cloroquina: falta de evidência e improviso para ganhar destaque.

Entrevista – Pergunta: Boa parte desses exemplos são casos de captura das políticas públicas por grupos de interesse?
Resposta de Lisboa: Sim. O Brasil está capturado por grupos de interesse, e isso faz parte do nosso atraso.

Entrevista – Pergunta: Onde André Lara Resende acerta e erra na proposta que apresentou para reduzir os juros?
Resposta de Lisboa: É difícil apontar acertos, pois a quantidade de erros revela desconhecimento dos problemas de teoria e prática monetária e fiscal, bem como da pesquisa acadêmica. É irresponsável defender uma ideia sem evidência empírica, como fazer testes em cem países durante cinco décadas para sustentar a hipótese. Não há exemplos no mundo de países que tenham adotado essa receita com sucesso. A Turquia tentou e fracassou. O Brasil tentou na gestão de Alexandre Tombini, no Banco Central, e também falhou. Para fazer política pública, é preciso ter uma centena de países testados ao longo de cinquenta anos.

Com informacoes de VEJA.

Tainá Ribeiro Alves

Sobre o Autor: Tainá Ribeiro Alves

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