Morte Sem Tabu: O México ensina que a morte é um caminho com volta

Por Tainá Ribeiro Alves em Rio Verde, GO 03/11/2026 06:01
Morte Sem Tabu: O México ensina que a morte é um caminho com volta

Foto: via Folha de S.Paulo

Chegado à Cidade do México em julho, o autor passou a observar a proximidade da celebração do Día de Muertos e percebeu que, ao contrário do que o nome sugere, trata‑se de uma temporada que se estende por semanas, e por vezes meses, de dedicação aos mortos.

A expressão recorrente nas conversas foi "Mis muertos", que em português seria "meus mortos" – uma forma de tratamento que evidencia a intimidade com a morte. Também se ouve o diminutivo "mis defuntitos", reforçando que, linguisticamente, a morte se torna quase um parente próximo.

"Existe uma relação entre os vivos e os mortos, uma convivência", afirma Sebastiano Pablo Gomez, de 73 anos, nascido em Santa María Alotepec, Oaxaca. No altar que ele mantém, são indispensáveis tamales de feijão (prato tradicional embrulhado em folha de milho), café, abóbora, mezcal (bebida feita de agave) e a comida preferida dos entes queridos.

Em sua comunidade, há rituais específicos: antes da madrugada do dia 2, todos tomam banho e vestem roupa nova. Uma pessoa da família sai para buscar as almas para o jantar, enquanto os demais permanecem em casa com a comida pronta. "Eles comem primeiro e depois a gente", explica Gomez. No dia seguinte, as famílias vão de casa em casa repartindo a comida, demonstrando a coletivização da morte.

Uma semana antes da data, um grupo de rezadeiras visita as casas do povoado carregando um sino. As famílias pronunciam o nome dos familiares falecidos e, mesmo sem conhecê‑los, as rezadeiras cantam em homenagem às almas. "É uma alegria, um dia para recordar e reconciliar, por isso a gente dança. É uma felicidade única uma vez ao ano", relata Gomez.

No altar, ele e os filhos mantêm a foto da esposa, falecida há três anos. "Quando chega outubro, a gente já se prepara, compra os ingredientes. Por mais simples que sejam as pessoas, elas guardam o dinheiro que têm para a oferenda", conta, ressaltando que é de origem Mixe, um dos 68 povos indígenas do país.

Conhecer a cosmovisão mexicana sobre a morte implica reconhecer as raízes indígenas da região. "Dizemos que jamais fomos conquistados pelos espanhóis", afirma, indicando que celebrar a morte com cor e festa representa tanto continuidade quanto resistência histórica à cosmovisão eurocêntrica, que costuma exigir silêncio e ausência de cor ao tratar do fim da vida.

Para Cilintli, de 53 anos, o período de celebração da memória dos que se foram tem início em 29 de setembro, quando se dança e se erguem cruzes de Pericón [plant

Com informacoes de Folha de S.Paulo.

Tainá Ribeiro Alves

Sobre o Autor: Tainá Ribeiro Alves

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