Inteligência artificial não mudou o voto nas eleições de 2024, aponta análise de especialistas

Por Tainá Ribeiro Alves em Rio Verde, GO 03/10/2026 18:00
Inteligência artificial não mudou o voto nas eleições de 2024, aponta análise de especialistas

Foto: via Folha de S.Paulo

Em 25 de julho, a convenção do Partido Liberal exibiu um vídeo em que uma inteligência artificial devolvia ao ex‑presidente Jair Bolsonaro voz e imagem para solicitar votos ao filho Flávio, gerando debate no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e tornando‑se símbolo de uma eleição supostamente sequestrada por máquinas.

Entretanto, a questão central permanece: a IA mudou a escolha dos eleitores? A resposta, segundo análise de dados, é negativa. Eleitores já alinhados ao bolsonarismo mantiveram sua posição, enquanto os que não eram apoiadores não se converteram ao assistir ao avatar.

O que a inteligência artificial efetivamente alterou foi o tom da conversa pública sobre a disputa eleitoral, ampliando a discussão sobre o papel da tecnologia nas campanhas.

Os defensores da tese de que a IA influencia decisivamente apontam que conteúdos produzidos por máquinas moldam a realidade a partir da qual o eleitor decide. Em 2024, ano com maior número de eleições da história, o Alan Turing Institute – centro britânico de ciência de dados – monitorou os pleitos e identificou apenas 16 casos virais confirmados de desinformação feita com IA na eleição geral do Reino Unido, além de 11 casos combinados na França e no Parlamento Europeu, sem evidência de alteração de resultados.

O pesquisador Felix Simon, da Universidade de Oxford, explica que o ecossistema digital já continha mentiras baratas antes dos geradores de imagem, e que o gargalo da desinformação sempre foi captar atenção e convencer quem não estava predisposto a crer na falsidade, sendo o volume de conteúdo insuficiente para gerar efeito decisivo.

No Brasil, o Observatório IA nas Eleições registrou 413 casos de uso político da tecnologia apenas na pré‑campanha, a maioria deepfakes de políticos, número que impressiona e demanda fiscalização. Contudo, como constatou o próprio Turing Institute, a exposição a esse tipo de material se concentra em quem já concorda com a mensagem, reforçando crenças em vez de convertê‑las.

Decisões de voto continuam fundamentadas em renda, emprego, rejeição, identidade e memória, fatores que não cabem em um simples prompt de IA.

Os argumentos favoráveis ao impacto da IA citam experimentos publicados nas revistas Nature e Science, nos quais conversas de poucos minutos com chatbots deslocaram a simpatia por candidatos mais que anúncios tradicionais. Esses testes, porém, foram realizados em ambiente controlado com exposição forçada; um mês depois, o efeito diminuiu, embora parte dele permanecesse, e as mudanças na intenção declarada de voto foram pequenas.

Capacidade demonstrada em laboratório não se traduz em impacto mensurável nas urnas. No que tange ao microdirecionamento, a IA tornou‑se infraestrutura de campanha: segmenta anúncios, produz vídeos e testa slogans. Contudo, todas as campanhas competitivas dispõem das mesmas ferramentas, de modo que uma arma que todos portam não desequilibra a disputa, assim como variações no preço do café ou na chuva de um domingo não decidem eleitores.

Com informacoes de Folha de S.Paulo.

Tainá Ribeiro Alves

Sobre o Autor: Tainá Ribeiro Alves

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