Entenda a antropomorfização da inteligência artificial e seus impactos

Por Theodoro Augusto Martins em Rio Verde, GO 27/09/2026 10:00
Entenda a antropomorfização da inteligência artificial e seus impactos

Foto: via Canaltech

Conversar com assistentes virtuais como se fossem pessoas tem se tornado rotina, e o fenômeno recebe o nome de antropomorfização da IA – a tendência de projetar sentimentos, intenções e capacidades humanas em tecnologias que não são seres vivos.

De acordo com Anderson R\u00f6he, advogado especializado em Direito Digital e membro das comiss\u00f5es de IA, Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o da OAB SP, a antropomorfiza\u00e7\u00e3o corresponde ao \"fen\u00f4meno pelo qual se atribuem sentimentos, emo\u00e7\u00f5es, comportamentos e\/ou estados mentais correlatos aos humanos a um ser ou alguma coisa que n\u00e3o \u00e9 humana, sendo an\u00e1logos, semelhantes, mas ainda n\u00e3o no patamar humano\".

Ali Hasan, professor da Universidade de Iowa, amplia a ideia ao afirmar que o processo pode envolver a proje\u00e7\u00e3o de atributos corporais, afetivos, racionais e cognitivos nos sistemas artificiais, refletindo a maneira como o ser humano interpreta e se relaciona com a tecnologia.

A pr\u00e1tica n\u00e3o surgiu com o ChatGPT. J\u00e1 em 1965, o cientista da computa\u00e7\u00e3o Joseph Weizenbaum desenvolveu a ELIZA, um dos primeiros programas capazes de simular uma conversa. Apesar da simplicidade da estrutura, usu\u00e1rios passaram a tratar a ELIZA como se fosse um terapeuta, atribuindo-lhe compreens\u00e3o al\u00e9m de suas reais capacidades.

Nos anos 1980, o pesquisador Drew McDermott criticou essa linguagem metaf\u00f3rica ao cunhar o termo \"mnem\u00f4nicos de desejo\" (wishful mnemonics) para descrever express\u00f5es que refletem mais as expectativas dos pesquisadores do que as reais fun\u00e7\u00f5es das m\u00e1quinas.

O uso de termos como \"aprender\", \"mem\u00f3ria\", \"vis\u00e3o\", \"entender\" e \"pensar\" facilita a comunica\u00e7\u00e3o de conceitos t\u00e9cnicos ao p\u00fablico, mas tamb\u00e9m alimenta a impress\u00e3o de que os computadores realizam essas atividades da mesma forma que humanos, como observa a pesquisadora Dora Kaufman, da \u00e1rea de tecnologia e IA.

Al\u00e9m da linguagem, o design dos pr\u00f3prios sistemas incorpora elementos que simulam a comunica\u00e7\u00e3o humana, aumentando a sensa\u00e7\u00e3o de proximidade psicol\u00f3gica, a confian\u00e7a do usu\u00e1rio e incentivando intera\u00e7\u00f5es mais longas e frequentes.

Anderson R\u00f6he aponta que a antropomorfiza\u00e7\u00e3o pode ser conveniente para quem prefere intera\u00e7\u00f5es com m\u00e1quinas a rela\u00e7\u00f5es humanas complexas, j\u00e1 que os assistentes s\u00e3o programados para responder de forma agrad\u00e1vel e manter a fluidez da conversa. Ele acrescenta: \"Em vez de ter intimidade, estabelecer conex\u00f5es reais e intera\u00e7\u00f5es sociais humanas complexas, podendo em algum momento ser confrontado por cren\u00e7as ou convic\u00e7\u00f5es, o usu\u00e1rio pode optar por substituir o contato humano por m\u00e1quinas desenhadas para sempre agradar\".

O especialista alerta ainda que sistemas capazes de conversas naturais podem gerar uma ilusa\u00e7\u00e3o de humanidade. \"Quando se dizem aut\u00f4nomas, inteligentes e avan\u00e7adas a ponto de interagir e manter a fluidez de um sistema conversacional, cria\u2011se a falsa sensa\u00e7\u00e3o de que se trata de um ser consciente\", conclui R\u00f6he.

Como j\u00e1 destacamos em nossa cobertura sobre o ritmo acelerado da intelig\u00eancia artificial e seus riscos regulat\u00f3rios, a antropomorfiza\u00e7\u00e3o acrescenta mais uma camada de complexidade ao debate sobre como lidar com tecnologias que se aproximam cada vez mais do comportamento humano.

Com informacoes de Canaltech.

Theodoro Augusto Martins

Sobre o Autor: Theodoro Augusto Martins

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