Henry Kissinger tentou devolver o Nobel da Paz e o comitê recusou
A história do Nobel da Paz costuma ser marcada por paradoxos, já que premiar personalidades ainda vivas pode resultar em laureados que contradizem o próprio ideal de paz que o galardão celebra.
Em 29 de janeiro de 1973, o norueguês John Sanness indicou Henry Kissinger, então conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, e o negociador norte‑vietnamita Lê Đức Thọ para o prêmio daquele ano, após o acordo de paz assinado em Paris dois dias antes, que previa a retirada das tropas americanas do Vietnã. O mesmo acordo foi fechado um mês depois do chamado bombardeio de Natal, quando bombardeiros B‑52 americanos lançaram mais de 15 mil toneladas de bombas sobre o Vietnã do Norte em 11 dias. Na carta de indicação, tornada pública apenas em 2023, Sanness alertou que “só o tempo dirá qual será o significado prático dos acordos”.
Com o tratado, as forças americanas cessaram as operações no Vietnã, e as últimas tropas deixaram o país em março de 1973. No Camboja, vizinho, os bombardeios continuaram até que o Congresso dos EUA cortasse o financiamento da operação; Kissinger defendia a continuidade dos ataques. Um levantamento da Universidade de Yale estima que quase metade das bombas lançadas sobre o Camboja desde 1969 caiu nos seis meses seguintes ao acordo.
Mesmo assim, o comitê norueguês decidiu, em 16 de outubro de 1973, dividir o Nobel da Paz entre Kissinger e Thọ “por terem negociado conjuntamente um cessar‑fogo no Vietnã”. Dois dos cinco membros renunciaram em protesto. Nenhum dos laureados compareceu a Oslo. Lê Đức Thọ recusou o prêmio, afirmando que só o aceitaria “quando o acordo de Paris for respeitado, as armas se calarem e a paz for realmente restaurada no Vietnã do Sul”, tornando‑se a única pessoa a recusar o Nobel da Paz. Kissinger, já secretário de Estado, alegou compromissos oficiais e enviou o embaixador americano na Noruega em seu lugar.
A ressalva de Sanness se confirmou: o cessar‑fogo nunca se sustentou e os combates entre Norte e Sul prosseguiram. No início de 1975, o Norte lançou uma ofensiva final; em 30 de abril, as tropas comunistas tomaram Saigon, pondo fim ao Vietnã do Sul. No dia seguinte, Kissinger enviou um telegrama ao comitê pedindo a devolução do prêmio, argumentando que “a paz que buscamos por meio de negociações foi derrubada pela força”. O comitê recusou o pedido.
Décadas depois, Kissinger ainda defendia os ataques ao Camboja. Ele faleceu em 29 de novembro de 2023, aos 100 anos, ainda com o Nobel da Paz que tentou devolver ainda em seu nome.
Com informacoes de Money Times.

