Emprego forte nos EUA eleva aposta em alta de juros e complica caminho da Selic
A economia dos Estados Unidos registrou a criação de 162 mil vagas de emprego não agrícolas (payroll) em agosto, número muito acima das projeções do mercado, que variavam entre 50 mil e 56 mil postos.
Com o dado, a probabilidade de um aumento de 0,25 ponto percentual na taxa de juros do Federal Reserve na reunião de 15 e 16 de setembro subiu para 58%, cerca de 9 pontos percentuais a mais do que no dia anterior, segundo a ferramenta FedWatch. A taxa de desemprego manteve‑se estável em 4,1%, em linha com o esperado.
O setor privado foi responsável pela maior parte do resultado, gerando 127 mil vagas, e a categoria de lazer e hospitalidade, que inclui serviços de alimentação e bares, impulsionou a alta com 62 mil novos postos.
Com o mercado de trabalho mostrando resiliência, o temor de uma recessão iminente perde força e as atenções do Federal Reserve se voltam aos dados de inflação na decisão de política monetária marcada para os dias 15 e 16 de setembro.
“O mês negativo que acendeu o alerta de recessão e derrubou os mercados em agosto simplesmente deixou de existir”, afirmou Marcelo Bassani, economista e sócio da Boa Brasil Capital, avaliando que o resultado afasta o risco de recessão ao “enterrar a narrativa do verão sem empregos”.
Um dos pontos mais relevantes do relatório foi a forte revisão dos dados dos meses anteriores. Julho, que havia acendido o alerta com o fechamento de 23 mil vagas, foi corrigido para uma criação positiva de 21 mil postos. Junho também subiu, de 20 mil para 31 mil vagas. No conjunto, o bimestre ganhou 55 mil postos frente ao que havia sido reportado.
O Ibovespa recuou após o payroll, perdendo 184 mil pontos. O dólar comercial subiu para R$ 5,13 e os juros futuros operaram de forma mista.
A um mês para a eleição, especialistas recomendam que investidores considerem posições em renda fixa prefixada e limitem a exposição a ações de estatais a 10% da carteira antes do primeiro turno.
A força do payroll retira o principal argumento de cautela do Fed em relação à economia real e sustenta o viés contracionista (hawkish) da autoridade monetária. Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, destacou que a solidez do emprego “retira qualquer contrapeso à prioridade declarada de Warsh no combate à inflação ainda distante da meta de 2%”.
André Valério, economista sênior do Inter, observou que o mercado de trabalho apresenta dinâmicas descoladas de oferta e demanda por causa do combate à imigração ilegal, mas ressaltou que “o mandato de inflação prevalece” e que os dados do CPI, a serem divulgados na próxima sexta‑feira (11), serão fundamentais para a decisão de juros. Valério lembrou que Kevin Warsh, em discurso recente em Jackson Hole, deixou implícito que favorecerá uma alta de juros em setembro caso a inflação venha muito acima do esperado.
Vinicius Flores, gestor de investimentos e sócio da Stratton Capital, apontou que os Estados Unidos estão diante de uma economia resiliente, que continua crescendo apesar das recentes volatilidades globais. “Acredito que o dado aumenta as chances de um aumento de 25 bps na taxa de juros americana na reunião de setembro, pois reforça que estamos em uma economia aquecida”, projetou Flores.
Apesar da forte geração de vagas e da alta da taxa de participação na força de trabalho, que subiu para 61,6%, os ganhos salariais seguem em acomodação. Os salários avançaram 0,3% no mês e acumularam alta de 3,1% em 12 meses, o menor ritmo desde maio de 2021.
A XP reduziu a projeção do PIB brasileiro para 2026 de 2% para 1,7% após o consumo cair mesmo com estímulos fiscais, indicando que a desaceleração econômica chegou mais cedo do que o mercado precificava.
A reação imediata dos investidores foi de alta do dólar, que chegou a subir cerca de 0,46% frente ao real nesta sexta‑feira (4), negociada na casa de R$ 5,12, e das taxas dos Treasuries, além de leve queda nos futuros das bolsas de Nova York.
Para Bruno Yamashita, coordenador de alocação e inteligência da Avenue, o movimento acompanha a leve abertura da curva de juros americana.
Leonardo Mendes, consultor financeiro da Manchester Investimentos, explicou que as taxas americanas mais altas reduzem a vantagem do carry trade local, operação que lucra com o diferencial de juros. “Com um câmbio mais pressionado, o Banco Central brasileiro tende a ter menos espaço para acelerar os cortes da Selic”, analisou Mendes, classificando o dado como marginalmente negativo para a velocidade de ajuste da política monetária brasileira.
Com informacoes de InfoMoney.

