Eleitores enviam recado de insatisfação econômica; Flávio Bolsonaro lidera e cria Congresso mais à direita
Os eleitores manifestaram, por meio dos votos de domingo, 4, a percepção de que a situação econômica não agrada a nenhum segmento da sociedade, ao colocar Flávio Bolsonaro (PL) na dianteira da disputa presidencial em relação a Lula (PT) e ao gerar um Congresso com tendência mais à direita.
O recado principal, segundo gestores consultados, aponta que a vida não está boa para ninguém: famílias enfrentam endividamento e salários reais estagnados mesmo em cenário de pleno emprego; empresas de todos os setores recorrem à recuperação judicial como medida de sobrevivência; e as instituições financeiras sofrem com juros elevados por um período prolongado, o que se torna um verdadeiro veneno.
“Não há ninguém que esteja em situação de conforto”, afirmou Daniel Wainstein, co‑CEO do Grupo Seneca, que atua em fusões e aquisições, gestão e banco. “As pessoas estão endividadas, as empresas com dificuldades enormes e a sensação é de que falta dinheiro.”
Wainstein acrescenta que o eleitorado teve a impressão de que o terceiro mandato de Lula terminou em condição pior do que começou.
O cenário de fusões, aquisições e dívidas no Brasil não se assustou com a eleição; os negócios somam R$ 1 trilhão.
Executivos da Faria Lima destacam que o próximo presidente precisará cuidar mais das contas públicas, citando propostas como teto de impostos, gatilhos do teto de gastos e a chamada “lei da igualdade” como ideias para o ajuste fiscal.
Rodolfo Riechert, CEO da Genial Investimentos, compartilha da mesma visão, dizendo: “Há uma fadiga tanto da figura do Lula quanto do modelo de desenvolvimento que ele implementou, que depende de investimentos do Estado.”
Michael Heydt, vice‑presidente sênior para Ratings Soberanos Globais da agência Morningstar DBRS, aponta que há uma “ansiedade generalizada” sobre o alto custo de vida e o nível de endividamento das famílias, o que fornece a Flávio uma “linha de ataque potente” para o segundo turno.
Entretanto, os especialistas esperam que Flávio apresente movimentos mais concretos, tanto no anúncio de medidas fiscais quanto na definição dos nomes que comporão sua equipe econômica. “É preciso ter algo mais amplo, que denote que possa haver diferença em relação aos juros que temos hoje”, acrescenta Wainstein.
Vários ajustes orçamentários dependem de aprovações no Congresso. Com a eleição de deputados e senadores mais à direita, a tarefa da equipe de Flávio será mais fácil do que a enfrentada no início do governo Jair Bolsonaro, segundo Wainstein.
Wainstein ainda afirma que Flávio deve usar a posição que terá no Congresso para implementar medidas que podem não ser populares, mas que terão impacto relevante na taxa de juros de longo prazo, resultando em otimismo moderado para 2028, enquanto 2027 será mais difícil devido aos ajustes.
William Jackson, economista‑chefe para mercados emergentes da Capital Economics, indica que a atual apreciação do real pode continuar se Flávio detalhar seus planos de reforma. Para ele, uma política fiscal mais apertada provavelmente “dará ao Banco Central mais confiança” para reduzir a restrição da política monetária.
Por outro lado, há ceticismo quanto à capacidade de Lula reverter as expectativas, a menos que ele anuncie um nome mais favorável a medidas fiscalmente responsáveis ou que altere a percepção sobre as contas públicas. Riechert afirma que Lula precisa falar de austeridade e economia para trazer o eleitor preocupado de volta ao discurso de responsabilidade fiscal, acrescentando que “tirar dinheiro do rico e dar para o pobre não funciona mais”.
Heydt ressalta que a habilidade de Lula não pode ser descartada: “Embora a votação do primeiro turno tenha sido relativamente próxima e a potência de um político formidável, único em sua geração, como Lula não possa ser descartada.”
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Com informacoes de Estadão.

