Documentos revelam que reajuste do Bolsa Família teve pressa e motivação eleitoreira, aponta editorial
Documentos obtidos pela Folha mostram que o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recorreu a um trâmite excepcional para aprovar o reajuste do Bolsa Família, anunciado a 17 dias do primeiro turno. Segundo o editorial do jornal, as novas informações enfraquecem as negativas do governo de que a medida teve motivação exclusivamente eleitoral.
A correção linear de 15,04% elevou o piso do programa de R$ 600 para R$ 691 mensais. O editorial reconhece que o reajuste foi justo como reposição de perdas inflacionárias acumuladas desde 2023. O problema, segundo o texto, está no momento e na forma da medida, adotada sem planejamento orçamentário e atropelando trâmites técnicos, com pagamento antecipado neste mês.
Registros obtidos pela Folha por meio da Lei de Acesso à Informação mostram que o Ministério do Planejamento elaborou ofícios, pareceres técnicos e exposição de motivos em 16 de setembro, véspera do anúncio da medida. Os documentos tramitaram por procedimento excepcional, com maior grau de sigilo, e só foram incorporados ao processo eletrônico em 1º de outubro, duas semanas depois do decreto.
O editorial também critica a explicação dada pelo presidente em entrevista à TV Globo, quando afirmou não saber que os benefícios do programa haviam permanecido congelados ao longo dos últimos três anos. Para o jornal, não há interpretações benevolentes para essa declaração: ou Lula ignora o que ocorre com a principal iniciativa social das gestões petistas, ou mentiu.
Poucas semanas antes do anúncio, o governo havia discutido três cenários: correção focada no benefício per capita; reforço apenas nos adicionais para crianças, adolescentes e gestantes; ou reajuste linear amplo. A opção de última hora foi pela correção abrangente, com custo de R$ 5,8 bilhões neste ano e R$ 22,7 bilhões em 2027. O texto destaca que as verbas não foram previstas no projeto de Orçamento para o próximo ano, enviado ao Congresso Nacional no final de agosto.
Para o editorial, esse descompasso é mais uma evidência de um casuísmo incompatível com a importância do tema. O jornal defende retomar as condicionalidades do programa e aprimorar a focalização, para que os recursos cheguem a quem realmente precisa.
O texto lembra que, em 2022, Jair Bolsonaro (PL) também usou o programa em uma ofensiva gastadora em busca da reeleição. Também aponta como consequência da perda de qualidade do cadastro o crescimento de famílias unipessoais, incentivado pelo salto do piso. Após um pico de 5,9 milhões no início de 2023, o número voltou a subir: de 3,5 milhões em janeiro de 2026 para 3,9 milhões em julho, quase 20% do total. O editorial ressalva que não se pode afirmar que o aumento se deva a fraudes, mas afirma que a inversão da tendência de limpeza cadastral perto das eleições torna a hipótese plausível.
Por fim, o editorial conclui que o Bolsa Família deve ser tratado com seriedade institucional permanente e não pode ser gerido ao sabor das pesquisas eleitorais.
Com informacoes de Folha de S.Paulo.

