Caça esportiva proibida no Brasil se expande em grupos de redes sociais, aponta estudo da UCL

Por Viviane Cristina Santos em Rio Verde, GO 06/09/2026 09:50
Caça esportiva proibida no Brasil se expande em grupos de redes sociais, aponta estudo da UCL

Foto: istockphoto/Getty Images

Um grupo de Facebook com milhares de membros exibe, entre outras imagens, um homem ao lado de uma paca recém-abatida; em outra comunidade, caçadores mostram tatus alinhados no chão após incursões na mata, além de anúncios de cães treinados para perseguir presas, discussões sobre armas, munições, GPS e equipamentos de visão noturna.

Essas publicações revelam um passatempo que contraria a legislação brasileira, pois a morte de animais silvestres por prazer configura crime ambiental, mas nos grupos é tratada como mais um hobby ao ar livre.

O fenômeno foi mensurado por pesquisadores da University College London (UCL) que, em estudo recém‑publicado na revista científica Biological Conservation, analisaram mais de 2 000 postagens de perfis brasileiros, muitos falsos ou sem identificação clara.

O levantamento identificou 4 658 exemplares abatidos de 157 espécies ao longo de cerca de um ano, incluindo espécies ameaçadas de extinção. As evidências apontam para a atuação de caçadores em 790 municípios de todos os estados, com Pará e Rio Grande do Sul no topo da lista.

Segundo o biólogo Hani El Bizri, autor do estudo, “a caça é muito difícil de medir e monitorar por se tratar de uma atividade dentro de imensas florestas, daí termos recorrido às redes para fazer a análise”.

A equipe da UCL correlacionou a expansão da caça esportiva ilegal ao aumento do acesso a armas de fogo no país, constatando que a prática se espalhou nas cidades com maior concentração de registros de espingardas e revólveres.

Esse crescimento acompanha mudanças iniciadas em 2019, durante o governo de Jair Bolsonaro, quando decretos ampliaram os limites para compra de armas e munições por colecionadores, atiradores desportivos e caçadores (CACs), tornando a obtenção de armamentos mais fácil que há uma década.

A cientista ambiental Thais Morcatty, também da UCL, acrescenta que houve um enfraquecimento das estruturas de proteção e fiscalização ambiental, criando um clima de maior permissividade.

A principal via de entrada para o arsenal desses grupos é a modalidade legal de controle de javali, espécie exótica que causa prejuízos à agricultura e ameaça a fauna nativa. O Ibama autorizou o abate de javalis em 2013, após a explosão populacional dos javalis europeus e dos híbridos chamados javaporcos.

Desde então, milhares de pessoas têm adquirido armamentos por meio dos CACs sob a justificativa de combater o animal invasor, mas na prática utilizam a licença para caça ilegal.

O abate de animais como cotias e pacas, que são os alvos mais frequentes, compromete funções ecológicas, como a dispersão de sementes, gerando o fenômeno da defaunação – um desmatamento invisível em que a floresta permanece, mas perde progressivamente sua fauna.

Além do impacto ambiental, a caça aumenta o risco de zoonoses, alerta o biólogo Hugo Fernandes‑Ferreira, ao aproximar humanos de espécies que podem facilitar epidemias.

A baixa fiscalização, punições brandas e a dificuldade de monitorar áreas extensas criam um cenário de impunidade. Embora a Lei de Crimes Ambientais preveja multa e detenção de seis meses a um ano para quem mata, captura ou persegue animais silvestres sem autorização, a responsabilização depende, na maioria das vezes, de denúncias ou flagrantes nas regiões remotas onde os abates ocorrem.

Especialista em direito ambiental Erika Bechara afirma que “grupos aqui exibem a atividade nas redes porque acreditam que jamais serão pegos”.

O estudo indica que já é hora de mudar a abordagem e buscar a responsabilização dos caçadores que utilizam as redes sociais como palco para a prática ilícita.

Com informacoes de VEJA.

Viviane Cristina Santos

Sobre o Autor: Viviane Cristina Santos

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