Caça esportiva proibida no Brasil se expande em grupos de redes sociais, aponta estudo da UCL
Um grupo de Facebook com milhares de membros exibe, entre outras imagens, um homem ao lado de uma paca recém-abatida; em outra comunidade, caçadores mostram tatus alinhados no chão após incursões na mata, além de anúncios de cães treinados para perseguir presas, discussões sobre armas, munições, GPS e equipamentos de visão noturna.
Essas publicações revelam um passatempo que contraria a legislação brasileira, pois a morte de animais silvestres por prazer configura crime ambiental, mas nos grupos é tratada como mais um hobby ao ar livre.
O fenômeno foi mensurado por pesquisadores da University College London (UCL) que, em estudo recém‑publicado na revista científica Biological Conservation, analisaram mais de 2 000 postagens de perfis brasileiros, muitos falsos ou sem identificação clara.
O levantamento identificou 4 658 exemplares abatidos de 157 espécies ao longo de cerca de um ano, incluindo espécies ameaçadas de extinção. As evidências apontam para a atuação de caçadores em 790 municípios de todos os estados, com Pará e Rio Grande do Sul no topo da lista.
Segundo o biólogo Hani El Bizri, autor do estudo, “a caça é muito difícil de medir e monitorar por se tratar de uma atividade dentro de imensas florestas, daí termos recorrido às redes para fazer a análise”.
A equipe da UCL correlacionou a expansão da caça esportiva ilegal ao aumento do acesso a armas de fogo no país, constatando que a prática se espalhou nas cidades com maior concentração de registros de espingardas e revólveres.
Esse crescimento acompanha mudanças iniciadas em 2019, durante o governo de Jair Bolsonaro, quando decretos ampliaram os limites para compra de armas e munições por colecionadores, atiradores desportivos e caçadores (CACs), tornando a obtenção de armamentos mais fácil que há uma década.
A cientista ambiental Thais Morcatty, também da UCL, acrescenta que houve um enfraquecimento das estruturas de proteção e fiscalização ambiental, criando um clima de maior permissividade.
A principal via de entrada para o arsenal desses grupos é a modalidade legal de controle de javali, espécie exótica que causa prejuízos à agricultura e ameaça a fauna nativa. O Ibama autorizou o abate de javalis em 2013, após a explosão populacional dos javalis europeus e dos híbridos chamados javaporcos.
Desde então, milhares de pessoas têm adquirido armamentos por meio dos CACs sob a justificativa de combater o animal invasor, mas na prática utilizam a licença para caça ilegal.
O abate de animais como cotias e pacas, que são os alvos mais frequentes, compromete funções ecológicas, como a dispersão de sementes, gerando o fenômeno da defaunação – um desmatamento invisível em que a floresta permanece, mas perde progressivamente sua fauna.
Além do impacto ambiental, a caça aumenta o risco de zoonoses, alerta o biólogo Hugo Fernandes‑Ferreira, ao aproximar humanos de espécies que podem facilitar epidemias.
A baixa fiscalização, punições brandas e a dificuldade de monitorar áreas extensas criam um cenário de impunidade. Embora a Lei de Crimes Ambientais preveja multa e detenção de seis meses a um ano para quem mata, captura ou persegue animais silvestres sem autorização, a responsabilização depende, na maioria das vezes, de denúncias ou flagrantes nas regiões remotas onde os abates ocorrem.
Especialista em direito ambiental Erika Bechara afirma que “grupos aqui exibem a atividade nas redes porque acreditam que jamais serão pegos”.
O estudo indica que já é hora de mudar a abordagem e buscar a responsabilização dos caçadores que utilizam as redes sociais como palco para a prática ilícita.
Com informacoes de VEJA.

