Bolsa brasileira registra maior saída semanal de investidores estrangeiros em 18 anos
Um cenário semelhante ao de um locatário que, de repente, deixa de pagar o aluguel, ilustra o que ocorre na Bolsa de Valores: o inquilino agora são os investidores estrangeiros, que nesta semana retiraram R$ 12,6 bilhões em ações negociadas na B3, o maior volume de saída registrado em um único período semanal desde o início da série histórica, em 2008.
Para dimensionar a reversão, vale lembrar que, em abril deste ano, os aportes de capital estrangeiro na bolsa brasileira atingiram o ápice de R$ 56,4 bilhões. Desde então, os não residentes já sacaram R$ 38,2 bilhões. Em apenas dez pregões de agosto, a saída acumulou R$ 18,1 bilhões, praticamente anulando o saldo positivo do ano, que agora ficou em R$ 18,2 bilhões.
O reflexo direto no principal índice de ações foi a queda de 5,5 % no mês, com recuo de 0,27 % na última sessão, posicionando o Ibovespa em 166.335 pontos.
Segundo Matheus Spiess, analista da Empiricus Research, a cautela dos investidores estrangeiros decorre de uma combinação de fatores: a proximidade das eleições, que gera insegurança sobre a direção política; dúvidas fiscais relacionadas às contas públicas; juros reais elevados em outras economias, que tornam o capital externo mais atraente fora do Brasil; competição global por recursos financeiros e tensões geopolíticas no Oriente Médio, que aumentam a aversão ao risco.
Gabriel Mollo, da Daycoval Corretora, reforça que a fuga não cessou no fim de semana: na sexta‑feira, 14 de agosto, os investidores não residentes retiraram mais R$ 2,5 bilhões da B3, elevando o total de agosto para os R$ 18,1 bilhões já citados. Ele alerta que, no curto prazo, o mercado enfrentará desafios decorrentes do fluxo negativo, dos juros de longo prazo ainda elevados, da incerteza fiscal e eleitoral, além da deterioração do ambiente externo.
Não se trata de um episódio isolado. Em cobertura anterior do portal, foi apontado que a B3 registrou perda de R$ 306,3 bilhões em valor de mercado durante 11 sessões consecutivas de queda do Ibovespa, evidenciando a vulnerabilidade do mercado frente a saídas de capital.
Mesmo com a corrente de venda, parte dos gestores estrangeiros continua enxergando oportunidades no Brasil. Spiess destaca que os preços descontados, a baixa participação de fundos locais, a abundância de minerais críticos, o potencial energético e a relevância do país nos mercados de petróleo e grãos são atrativos, embora a perspectiva positiva dependa de maior clareza sobre a política fiscal a partir de 2027.
Em consonância, Mollo relata que investidores consultados na Conferência Anual do Santander apontaram valuations mais atrativos, mas ressaltam que uma melhora estrutural está condicionada à responsabilidade fiscal.
Durante a mesma conferência, Michelle Chan, CIO do Santander Private Internacional, explicou que o investidor global tem diversificado seus portfólios para além dos Estados Unidos, motivado por um cenário de crescimento global mais sólido, com projeção de expansão de 2,1 % para este ano, o que pode redirecionar fluxos de capital.
Com informacoes de Seu Dinheiro.

