Batalhas de “farmar aura” invadem praças e avenidas ao redor do mundo
Há cerca de um mês, a esplanada do Palácio de Belas Artes, na Cidade do México, foi improvisada como um palco onde adolescentes se desafiaram em sequências de poses, coreografias, acrobacias e gestos, enquanto o público decidia quem ostentava maior “aura”.
Menos de quinze dias depois, a mesma fórmula foi replicada em Sevilha, na Espanha, atraindo centenas de jovens que, ao invés de participar de uma gincana tradicional, foram avaliados pela capacidade de exibir estilo, confiança e gerar reações do público.
O termo “farmar aura” combina duas gírias da internet: “farmar”, do vocabulário dos games, que indica a repetição de ações para acumular pontos ou experiência, e “aura”, usada online para designar carisma ou magnetismo pessoal. Nas competições, a abstração se converte em disputa concreta: vence quem convencer os demais de possuir maior presença.
O repertório dos participantes mistura referências da cultura pop e da internet, incluindo imitações de personagens, passos de dança virais, poses marcantes, demonstrações de habilidades físicas e a circulação de memes. Um gesto particularmente popular é o “six‑seven”, realizado com as mãos enquanto se repetem as palavras “six” e “seven”, sem significado específico aparente.
No Brasil, a tendência rapidamente deixou de ser exclusiva das redes sociais e se espalhou por diversas cidades, como São Paulo, Fortaleza, Cuiabá e Manaus. Em São Mateus, zona leste de São Paulo, cerca de 200 espectadores acompanharam uma disputa cujos concorrentes estavam fantasiados de personagens como Naruto e Seu Madruga.
Algumas situações curiosas surgiram: em Niterói, no Rio de Janeiro, a prefeitura interrompeu uma batalha por falta de autorização formal; já em Cuiabá, o evento foi transferido de local depois que o prefeito Abílio Brunini declarou desconhecer o que significava “farmar aura”.
O fenômeno remete a estudos clássicos sobre comportamento coletivo. No final do século XIX, o francês Gustave Le Bon publicou “Psicologia das Multidões” (1895), analisando mecanismos como imitação, sugestão e contágio que explicam como indivíduos adotam comportamentos incomuns em grupo.
A psicóloga brasileira Stephany Pereira, especialista no assunto, identifica nesses encontros um reflexo dos mesmos mecanismos, potencializados pelo ambiente digital que acelera a visibilidade e a reprodução de gestos valorizados pelo grupo. “A lógica dos surtos coletivos encontrou, na era digital, uma máquina de propagação incomparavelmente mais veloz”, afirma.
Assim, embora a multidão continue humana, a forma de cativá‑la mudou radicalmente, transformando um jogo de carisma online em espetáculo de rua que atravessa continentes. Publicado na VEJA em 25 de setembro de 2026, edição nº 3014.
Com informacoes de VEJA.

