Banco Master manipulou documentos com Word, PDFs e códigos para criar carteira de créditos fictícia, aponta perícia da PF

Por Tainá Ribeiro Alves em Rio Verde, GO 14/09/2026 06:20
Banco Master manipulou documentos com Word, PDFs e códigos para criar carteira de créditos fictícia, aponta perícia da PF

Foto: via G1

Segundo o laudo pericial, a finalidade era comprovar documentalmente a existência de uma carteira de créditos consignados vinculada à Tirreno Consultoria. Mesmo após a retirada de datas e a modificação de documentos, a própria estrutura digital deixou vestígios, como a divergência entre as datas impressas nas Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) e os registros das assinaturas digitais, evidenciando que documentos datados anteriormente foram assinados somente depois.

A fraude não se limitou à confecção de documentos falsos; houve também uma segunda frente que consistiu em apagar ou alterar informações capazes de revelar a origem ou a data real de produção dos arquivos. O objetivo era fazer com que uma sequência de documentos produzidos em 2025 parecesse ter sido gerada em períodos anteriores.

Em um dos casos analisados, um Termo de Consentimento originalmente datado de 24 de fevereiro de 2023 teve a data removida em julho de 2025, demonstrando a tentativa de camuflar a cronologia.

A operação, investigada pela Polícia Federal, funcionou como uma linha de montagem digital: dados reais de clientes foram extraídos dos sistemas internos do banco; documentos foram produzidos em massa com ferramentas do Microsoft Office; páginas de assinaturas foram geradas por programas desenvolvidos pela própria área de tecnologia; e, finalmente, os elementos foram reunidos em novos arquivos PDF que compunham dossiês de contratos apresentados como créditos legítimos da Tirreno ao Banco de Brasília (BRB).

A relação triangular entre Tirreno, Banco Master e BRB configurou um esquema de simulação e repasse de ativos ilíquidos. A Tirreno atuou como empresa de fachada para formalizar R$ 7,15 bilhões em cessões fictícias de crédito consignado, que o Banco Master utilizou sem lastro para vendê‑las ao BRB.

O relatório técnico‑pericial da PF foi elaborado a partir de uma apresentação interna apreendida na área de tecnologia do Banco Master, intitulada “Investigações internas – Banco Master”. O documento contém 30 slides que detalham atividades realizadas entre 18 de junho e 24 de outubro de 2025 para a produção de documentos referentes à cessão de créditos consignados ao BRB, demonstrando a combinação de ferramentas comuns de escritório, programação e edição de documentos.

O primeiro passo da “linha de montagem” consistiu na obtenção de dados de clientes que já haviam realizado operações legítimas. Funcionários recorreram a informações armazenadas nos sistemas internos, inclusive do produto CredCesta – crédito consignado destinado a servidores públicos, aposentados e pensionistas. Em 2 de julho de 2025, às 14h05, Fabrizio Pereira Alencar, coordenador de Controles do Back Office, solicitou a Vinicius Lucas Trentino, analista de Projetos Sênior de TI, a lista de CPFs via Microsoft Teams. Vinicius compilou os CPFs no arquivo cpf_cessao.csv e, no dia seguinte, executou a consulta Contratos_Henrique_Dados.sql no banco de dados interno. O resultado foi exportado para a planilha Dados_cessão.xlsx e enviado por e‑mail a Fabrizio e à equipe em 3 de julho, às 16h57. A planilha continha nome, CPF, data de nascimento e nome da mãe dos clientes, servindo como matéria‑prima para a confecção dos documentos.

Conversas internas revelam problemas na base de dados utilizada. Em 20 de junho, Rafael Manfrin da Silva e Thiago Ramalho discutiram a filtragem dos dados, com Rafael apontando um CPF que possuía apenas uma proposta de 2019 e classificando a lista como “meio furada”. Thiago respondeu que, ao filtrar a formalização, havia apenas 328 créditos CredCesta‑refinanciados, o que não parecia representar a maioria esperada, e Rafael confirmou a presença de registros inconsistentes.

Com os dados reunidos, uma das etapas subsequentes foi a produção massiva de procurações. Allan da Silva Machado, gerente de Operações I do Back Office, utilizou uma função padrão do Microsoft Word – a mala direta – para gerar 2.700 procurações de uma só vez, automatizando a inserção dos dados dos clientes nos documentos.

Com informacoes de G1.

Tainá Ribeiro Alves

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