Resposta internacional ao ebola evidencia desigualdade geopolítica na saúde
A reação internacional a epidemias difere conforme a extensão geográfica do vírus, expondo descaso com populações vulneráveis.
Pesquisa realizada pela Universidade de São Paulo analisou como fatores geopolíticos, econômicos e sociais influenciam a forma como a comunidade mundial responde a emergências sanitárias, identificando os motivos pelos quais algumas crises recebem mais atenção política, recursos e ajuda externa que outras.
O estudo constatou que, quando um surto de ebola permanece restrito a países africanos, a resposta institucional – englobando atenção política, envio de suprimentos, profissionais e apoio financeiro – costuma ser mais lenta e insuficiente.
O panorama se altera quando a doença passa a ser enquadrada como “ameaça à segurança internacional”, sobretudo diante do risco de disseminação para além do continente africano e de chegada ao Norte Global.
O grande número de casos registrados na África Ocidental em 2014 ilustra essa mudança: após a ocorrência de casos nos Estados Unidos, Espanha, Reino Unido e Itália, a mobilização internacional se intensificou consideravelmente.
O atual surto na República Democrática do Congo (RDC), na África Central, reacende o debate. A nação declarou oficialmente, em 15 de maio, um surto de ebola causado pela variante Bundibugyo.
Dados do Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças (ECDC) apontam que, em 22 de setembro, a RDC reportou um total acumulado de 7.773 casos confirmados e 3.759 óbitos relacionados, com informações atualizadas até 21 de setembro. Na mesma data, 839 pacientes permaneciam internados em isolamento.
Esses números representam um acréscimo de 40 novos casos confirmados e 27 mortes adicionais em comparação com o relatório anterior, de 21 de setembro.
O episódio é considerado o segundo evento mais letal da história do Congo e um dos que avançam mais rapidamente.
A professora Deisy de Freitas Lima Ventura, da Faculdade de Saúde Pública da USP e orientadora da pesquisa, alertou que o surto corre o risco de ser subestimado pela comunidade global enquanto for visto apenas como um problema local africano, como ocorreu em 2018, sem representar ameaça direta às nações desenvolvidas.
A investigação resultou no artigo “Negligência e saúde global: o caso do surto de ebola na República Democrática do Congo em 2018”, publicado na revista Interface – Comunicação, Saúde, Educação. O primeiro autor é o brasileiro Ramiro Januário dos Santos Neto, mestre em Direitos Humanos e doutor em Saúde Global e Sustentabilidade, ambos pela USP.
Ramiro Neto defendeu sua tese na Faculdade de Saúde Pública, analisando como a comunidade internacional tratou os episódios de 2014 e 2018 e detalhando o processo de declaração de Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII) pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
A pesquisa se apoia nos campos dos Estudos Críticos de Segurança e da Saúde Global, utilizando o conceito de securitização para descrever o processo pelo qual um problema de saúde pública passa a ser tratado como ameaça à segurança, permitindo que a percepção de risco e os interesses políticos dos países mais influentes determinem quais crises recebem prioridade na agenda internacional.
O surto de 2014, originado na Guiné e rapidamente disseminado pela Libéria e Serra Leoa, foi provocado pela cepa Zaire ebolavirus e causou cerca de 11 mil mortes. A resposta inicial de organismos multilaterais, como a OMS, foi tardia.
Quando o vírus alcançou os Estados Unidos, Espanha e Reino Unido, o posicionamento político das nações do Norte Global mudou radicalmente, transformando a crise sanitária em questão de defesa.
Em agosto de 2014, a OMS decretou Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII). No mês seguinte, o Conselho de Segurança da ONU aprovou a histórica Resolução 2177, classificando a epidemia como “ameaça à paz e à segurança internacionais”.
A medida desencadeou uma megamobilização financeira e militar liderada por potências como Estados Unidos, França e Reino Unido, motivada pelo receio de desestabilização econômica global.
A professora Ventura destacou que países desenvolvidos enviaram recursos financeiros expressivos, tropas e equipes médicas de emergência em resposta ao risco percebido.
Quatro anos depois, as províncias de Kivu do Norte e Ituri, na RDC, tornaram‑se o epicentro da segunda maior epidemia de ebola da história, com 3
A análise global evidencia que a classificação de uma epidemia como questão de segurança determina a rapidez e a magnitude da assistência internacional, revelando desigualdades geopolíticas persistentes nas respostas de saúde pública.
Com informacoes de Superinteressante.

