Proibição das bets eleva assédio de sites chineses e impulsiona bloqueios digitais no Brasil

Por Tainá Ribeiro Alves em Rio Verde, GO 08/10/2026 15:00
Proibição das bets eleva assédio de sites chineses e impulsiona bloqueios digitais no Brasil

Foto: via Estadão

A medida que proibiu as apostas online no Brasil passou a valer a partir do final do mês passado e, embora seja vista como um passo positivo por viciados e organizações de apoio, tem sido acompanhada por um aumento significativo de assédio proveniente de sites clandestinos, em especial plataformas chinesas de caça‑níqueis.

A advogada e auditora do Tribunal de Contas da Bahia, Juliana Prates, utiliza as redes sociais para alertar sobre os impactos das apostas, após perder o irmão para o vício, reforçando a urgência de atenção ao problema.

O psicólogo Rafael Ávila, fundador da Associação de Proteção e Apoio ao Jogador e consultor do Ministério na formulação de políticas para jogadores, afirma que, com a intensificação da proibição, as plataformas passaram a enviar spam em massa, intensificando o assédio que já existia.

A empresa de tecnologia Besafe lançou um aplicativo que impede o acesso a sites de apostas, tanto nacionais quanto estrangeiros. Na última semana, o número de novos usuários chegou a 840 por dia, 68% acima da média habitual de 500 usuários diários. Segundo Claudio Henrique, um dos fundadores da Besafe, “tínhamos 200 mil plataformas bloqueadas; nos últimos 30 dias, bloqueamos 500 mil”.

O Ministério da Fazenda informou que, dos 188 sites que operavam com autorização até a última segunda‑feira, apenas um continua ativo. O bloqueio foi solicitado e a fiscalização acompanha o cumprimento da determinação.

Claudio Henrique acrescenta que os proprietários de sites legais conseguem criar diversos domínios a partir de uma mesma empresa, dificultando um bloqueio definitivo. “O governo derruba um site, mas os caras criam outras mil subunidades e colocam todas para rodar”, declarou.

Rafael Ávila relata que, nas duas semanas anteriores, vários pacientes tiveram recaídas, a maioria direcionada a plataformas chinesas focadas em caça‑níqueis. Ele destaca que as recaídas não ocorreram exatamente após a medida, mas coincidiram com o aumento da discussão pública sobre a proibição. Alguns pacientes recaíram porque a proibição limitou o acesso às plataformas regulamentadas, enquanto outros já haviam feito a autoexclusão via bloqueio de CPF e buscaram as alternativas chinesas.

A reportagem do Estadão acessou grupos em aplicativos de mensagem onde casas clandestinas são divulgadas a cada hora. Nos fóruns de apostas esportivas, as mensagens se concentram à noite, próximo aos horários das partidas de futebol no Brasil e em outros países da América Latina, e são geralmente enviadas por cambistas que vendem bilhetes com combinações de resultados de partidas específicas.

Nos grupos de cassinos online, o volume de anúncios aumenta no final da noite, próximo à madrugada. As propagandas, sempre coloridas, prometem lucros fáceis, bônus elevados e garantias de dinheiro apenas ao se inscrever. Alguns anunciantes chegam a enviar comprovantes de Pix para comprovar ganhos.

Gabriel Pedroso, de 32 anos, designer gráfico e membro de um grupo de apoio a viciados, relata que, após a proibição, o assédio das casas clandestinas nas redes sociais disparou. “Não sei se é programado por IA, mas basta acessar alguma rede social que as bets aparecem”, contou, acrescentando que está sem jogar há meses, mas vê muitas ofertas direcionadas a ele e a outras pessoas que ainda perdem dinheiro em plataformas ilegais.

Pedroso descreve que, recentemente, um integrante do grupo tentou jogar em sete plataformas diferentes e perdeu em todas, enfatizando que “as chinesas ainda estão aí, roubando todo mundo. Aumentou demais o assédio. Parece que elas sabem que é como uma droga, e o traficante é o seu celular”.

Eduardo Sousa, de 21 anos, também percebeu o aumento de abordagens. Na semana passada, um usuário escreveu em um grupo de ludopatas: “Salve, galera, tenho uma plataforma muito boa, ela tá bugada (sinalizando que é mais fácil de ganhar). Faz um teste nela”. Sousa respondeu: “Me poupe, cara. A galera querendo sair desse vício maldito e você induzindo”. A mensagem foi apagada e o usuário foi banido do grupo.

O governo prevê, entre as medidas, a possibilidade de busca ativa de dependentes de apostas, buscando identificar e apoiar indivíduos em risco.

Especialistas afirmam que a restrição da oferta no mercado formal pode ser eficaz no combate à epidemia de apostas, mas ressaltam a necessidade de políticas de apoio para evitar a migração dos viciados para o mercado informal. Marcelo Ribeiro, pesquisador do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes, do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), afirma: “Há evidências de que uma redução importante da oferta pode diminuir o comportamento de jogo inclusive entre as pessoas de maior risco”.

Outros debates em curso abordam questões como a possibilidade de processos contra as casas de apostas por vício em jogo, direitos a indenizações, a responsabilidade sobre apostas feitas por crianças e adolescentes e o papel de aplicativos que bloqueiam sites de apostas.

Com informacoes de Estadão.

Tainá Ribeiro Alves

Sobre o Autor: Tainá Ribeiro Alves

Cobre o que o Brasil está buscando agora: famosos, esporte, tech, games e virais.