Plutão pode ter nitrogênio líquido escorrendo em sua superfície
A equipe da New Horizons interpreta as manchas escuras que contornam as células de convecção no norte de Sputnik Planitia como a marca deixada por criolava de nitrogênio vinda da base da geleira. Mais de cinco bilhões de quilômetros do Sol, sobre uma planície de gelo de nitrogênio com área maior que os territórios somados de França e Alemanha, o termômetro marca 37 kelvins — algo em torno de 236 graus Celsius negativos.
Nesse frio, o nitrogênio que respiramos vira pedra. Nada deveria escorrer ali. E é exatamente contra essa intuição que uma equipe liderada por Alan Stern, o cientista-chefe da missão New Horizons, publicou no periódico The Planetary Science Journal um argumento construído com cuidado quase artesanal: as manchas escuras que desenham as fronteiras das células de convecção no norte de Sputnik Planitia podem ser a marca deixada por nitrogênio líquido que brotou do fundo da geleira, vazou na superfície de Plutão e congelou depois de correr alguns quilômetros.
Se a interpretação estiver correta, existe vulcanismo de líquido em atividade no planeta anão hoje. A história começa antes mesmo de qualquer sonda chegar lá. Observações do Telescópio Espacial Hubble e curvas de luz obtidas de solo já indicavam, nos anos 2000, que um hemisfério específico de Plutão — o oposto ao que encara Caronte — concentrava os terrenos mais brilhantes do corpo.
A região brilhante que os astrônomos suspeitavam existir revelou-se uma planície glacial de proporções continentais, batizada Sputnik Planitia: cerca de 850 quilômetros de leste a oeste e aproximadamente 1.500 quilômetros de norte a sul, preenchendo uma bacia de impacto antiquíssima de extensão semelhante. O material que forma essa planície é gelo rico em nitrogênio molecular, com quantidades menores de monóxido de carbono e metano, composição estabelecida por espectroscopia durante o encontro.
A superfície da geleira está de 2,5 a 3,5 quilômetros abaixo do terreno montanhoso que cerca a bacia, e é notavelmente plana em escalas de dezenas a centenas de quilômetros. A explicação está na reologia: a 37 kelvins, o gelo de nitrogênio tem viscosidade baixa o suficiente para escoar como um fluido muito lento, nivelando irregularidades ao longo do tempo geológico.
Nas bordas do setor norte da bacia, onde a planície encontra as montanhas, há uma depressão de 30 a 75 quilômetros de largura, uma espécie de fosso que acompanha o contato entre os dois terrenos. O detalhe que transformou Sputnik Planitia em um caso de estudo permanente da ciência planetária apareceu nas primeiras imagens de alta resolução: a maior parte da planície está dividida em polígonos separados por sulcos estreitos, um mosaico que lembra a superfície de uma sopa engrossando na panela.
Cada célula tem tipicamente de 20 a 35 quilômetros de diâmetro, com um leve domo no centro e uma calha na borda, e a diferença de altura entre centro e margem fica na casa dos 100 metros. Trata-se de convecção em estado sólido: o gelo aquecido por baixo sobe no meio da célula, espalha-se lateralmente ao encontrar a tampa fria e desce nas bordas, exatamente como o padrão que se forma numa panela de mingau em fogo baixo, só que com um material duro como rocha e em câmera lentíssima.
Essa maquinaria tem uma consequência que os cientistas consideram decisiva. Em nenhuma imagem da New Horizons, até a resolução de cerca de 80 metros por pixel, aparece uma única cratera de impacto sobre Sputnik Planitia. Não uma cratera pequena, não uma cratera degradada: nenhuma. Como a bacia que abriga a planície deve estar entre as estruturas mais antigas do planeta, a ausência total de crateras significa que a superfície é jovem e continua sendo refeita.
As estimativas de renovação por convecção situam o tempo de reciclagem da região entre 500 mil e 1 milhão de anos, um piscar de olhos na escala de 4,5 bilhões de anos do Sistema Solar. Sputnik Planitia não é um relicário congelado. É uma fábrica em operação.
Emergindo desse mar de nitrogênio há blocos montanhosos fraturados que chegam a mais de três quilômetros de altura, formados principalmente por gelo de água. Eles se concentram no lado oeste da planície, mas aparecem também em outros pontos, com destaque para uma região informalmente chamada Challenger Colles, a leste.
A física por trás dessa geografia é elegante: gelo de água puro é cerca de 10% menos denso que gelo de nitrogênio puro nas condições de Plutão. Os blocos, portanto, ou estão encalhados no fundo da bacia ou flutuam no nitrogênio como icebergs colossais, e é possível que o próprio escoamento do gelo de nitrogênio tenha transportado os maiores deles até suas posições atuais. Uma montanha de gelo boiando numa geleira de outro gelo.
Com informacoes de Space Today.

