Os limites do open source: quando o código aberto encontra a lei de marcas

Por Theodoro Augusto Martins em Rio Verde, GO 07/09/2026 19:27
Os limites do open source: quando o código aberto encontra a lei de marcas

Foto: via Tecnoblog

Comunidades de código aberto são fascinantes porque, embora alguns projetos sejam sustentados por interesses financeiros, muitas vezes predominam o senso de comunidade, propósitos sociais, ganho de experiência e a vontade de não depender de soluções proprietárias.

No entanto, a ideia de que o software livre é uma terra sem lei pode levar a interpretações equivocadas, como demonstra o caso do Notepad++ para macOS, que ganhou destaque em abril deste ano.

O Notepad++ foi lançado em 2003 por Don Ho, que continua como mantenedor. A ferramenta, leve, multi‑linguagem e de código aberto sob licença GPL 3.0, está disponível apenas para Windows. Em abril, surgiu um repositório que usava o nome oficial “Notepad++”, exibia o logotipo original e listava Don Ho entre os responsáveis, alegando oferecer uma versão para macOS.

A comunidade rapidamente alertou Ho, que pediu a Andrey Letov – autor do fork – que alterasse nome e identidade visual. Letov inicialmente resistiu, alegando querer apenas disponibilizar o editor para usuários de Mac e esperando um sinal verde de Ho. Sob pressão de Ho e da comunidade, Letov concordou em renomear o projeto para “Nextpad++”, criar domínio e logotipo próprios e remover menções que sugerissem a participação de Don Ho. Mais tarde, o Nextpad++ recebeu também uma versão para Linux.

A licença GPL 3.0 permite uso gratuito, acesso ao código‑fonte e criação de forks, mas não concede direitos sobre marcas registradas. O erro de Letov foi assumir que a GPL incluía autorização para usar o nome e o símbolo do Notepad++. Além disso, ele associou o nome de Don Ho ao novo software sem consentimento. Ho declinou apoiar o fork, argumentando que não poderia se responsabilizar pela manutenção a longo prazo nem pelos riscos de vulnerabilidades que poderiam prejudicar a reputação do Notepad++ original.

Um segundo episódio relevante ocorreu com a suíte de escritório Euro‑Office, anunciada em março de 2026 e lançada em junho do mesmo ano como parte da estratégia de soberania digital da União Europeia. O Euro‑Office baseia‑se no OnlyOffice, um projeto aberto licenciado sob AGPL‑3.0, e essa dependência nunca foi ocultada.

Entretanto, os responsáveis pelo Euro‑Office foram acusados de violar propriedade intelectual ao remover o logotipo e outras referências ao OnlyOffice de suas interfaces, dando a impressão de má‑fé. A cláusula adicional da licença AGPL‑3.0 do OnlyOffice exige a preservação da identidade visual e das atribuições de autoria em softwares derivados.

Em defesa, a Nextcloud – uma das organizações que conduzem o Euro‑Office – alegou que a Seção 7 da AGPL‑3.0 determina que restrições adicionais que impeçam o uso ou a distribuição do código devem ser eliminadas, interpretando que a remoção dos elementos visuais seria permitida.

Esses dois casos reforçam que, embora o código aberto promova inovação, ele não elimina a necessidade de observar licenças, marcas e atribuições. Não é a primeira vez que questões legais emergem no ecossistema tecnológico; como já apontamos anteriormente na investigação da UE sobre a invasão de um site alemão por agentes autônomos da OpenAI, o respeito às regras é essencial para evitar consequências que vão além de um mero aborrecimento.

Portanto, desenvolvedores e comunidades devem combinar a liberdade do open source com bom senso e rigor jurídico, garantindo que a colaboração continue saudável e livre de litígios.

Com informacoes de Tecnoblog.

Theodoro Augusto Martins

Sobre o Autor: Theodoro Augusto Martins

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