Mulheres Yanomami lançam manifesto contra Flávio Bolsonaro e alertam sobre crise sanitária e garimpo ilegal

Por Tainá Ribeiro Alves em Rio Verde, GO 09/10/2026 11:40
Mulheres Yanomami lançam manifesto contra Flávio Bolsonaro e alertam sobre crise sanitária e garimpo ilegal

Foto: via mst.org.br

Um vídeo gravado por mulheres Yanomami ao final de setembro traz Noemia, que mora na maloca Papiu, como a primeira a declarar que não quer que o filho de Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, assuma a presidência, temendo o retorno da crise sanitária e das atividades econômicas ilegais que marcaram o governo de Jair Bolsonaro.

A região da maloca Papiu está entre as mais afetadas pelo garimpo na Terra Indígena Yanomami, a maior do Brasil em extensão, com cerca de 31 mil habitantes e área comparável à de Portugal.

Entre 2019 e 2022, 420 crianças menores de cinco anos morreram por causas evitáveis, como malária, desnutrição e verminoses, número quase duas vezes maior que o registrado nos quatro anos anteriores, segundo o Sistema de Informação da Atenção à Saúde Indígena (Siasi). Destas mortes, 47 foram por malária e 115 por desnutrição.

Em uma carta assinada por 60 mulheres Yanomami reunidas no 17º Encontro de Mulheres, representando 30 comunidades de nove regiões do território, foi escrito que "o rastro de Bolsonaro é contaminado por doenças, está cheio de malária, diarreia, verminoses, feridas, pneumonia, tomado pela desnutrição, vômito e coceira" e que, por isso, não desejam que Flávio Bolsonaro ocupe a cadeira presidencial. O encontro aconteceu na comunidade de Rokoari no final de setembro, antes do primeiro turno, e as lideranças lembraram dos impactos do garimpo em seu território, declarando apoio à reeleição de Lula.

No início de janeiro de 2023, primeiro mês do terceiro governo Lula, o colapso do sistema de saúde levou à declaração de situação de emergência, com Adneia Yanomami afirmando: "Não queremos voltar a chorar".

Ao menos 4 mil indígenas ficaram sem assistência médica; no auge da invasão garimpeira, pelo menos seis postos de saúde foram fechados ou destruídos, interrompendo a assistência a 72 comunidades que somam mais de 4 mil indígenas, conforme relatório do Ministério Público Federal (MPF).

O documento do MPF descreve o desastre socioambiental promovido pelo garimpo ilegal e a omissão do Estado em garantir segurança territorial ao povo Yanomami, culminando no colapso da já fragilizada assistência sanitária no território.

Um dos postos afetados foi o Homoxi, responsável pelo atendimento de cerca de 250 indígenas, localizado ao lado de uma cratera de garimpo e incendiado em dezembro de 2022, com suspeita de ação de garimpeiros invasores.

Outra unidade interditada foi a de Kayanau, onde profissionais de saúde estimaram a presença de 1,6 mil garimpeiros, além de um intenso fluxo de aeronaves, prostituição e abandono da agricultura.

O garimpo e a violência também dificultaram o envio de medicamentos a regiões acessíveis apenas por via aérea.

A Repórter Brasil obteve um ofício da Hutukara Associação Yanomami de setembro de 2022 que descreve um quadro de desabastecimento em postos de saúde próximos às áreas invadidas de Xitei e Surucucu. Em um período de três semanas, entre agosto e setembro, seis crianças morreram, uma delas por pneumonia causada por "infestação massiva de vermes", e a associação informou a falta de medicamentos necessários para o controle de verminoses, impossibilitando tratamento e prevenção em comunidades inteiras.

Investigações do MPF apontam indícios de um suposto esquema de fraude e desvio de verbas públicas na saúde da Terra Indígena. O Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami teria empenhado R$ 3 milhões em 2021 para a aquisição de medicamentos essenciais, mas há suspeitas de que apenas uma fração desses remédios tenha sido entregue, apesar do pagamento integral das notas fiscais.

Segundo o relatório do MPF, mais de 10 mil crianças indígenas teriam ficado sem tratamento contra verminoses, provocando quadros severos da doença, com relatos de crianças expelindo vermes pela boca.

A Fundação dos Povos Indígenas (Funai) estimou, em fevereiro de 2023, que cerca de 20 mil garimpeiros invadiram o território Yanomami.

De acordo com o Centro Gestor Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia, mais de 1,5 mil pontos de mineração ilegal estavam operando entre 2020 e 2022, totalizando 2,2 mil hectares devastados nesse período.

Com informacoes de mst.org.br.

Tainá Ribeiro Alves

Sobre o Autor: Tainá Ribeiro Alves

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