Matuto S.A. leva “Terra Vermelha” e a viola caipira ao Grammy Latino
A disputa pelo Grammy Latino na categoria Melhor Álbum de Música Urbana em Língua Portuguesa está mais acirrada do que nunca, com cinco nomes que representam diferentes vertentes da cena urbana brasileira.
Ajulliacosta chega com “Novo Testamento”, lançado em setembro de 2025 e descrito pela própria artista como um processo de redescoberta pessoal, abordando revoluções na esfera íntima. Budah apresenta “FREQUÊNCIA LUNAR”, continuação de “Púrpura” (2024), que incorpora pesquisas sobre fases lunares e efeitos sonoros no corpo, migrando do R&B para rap, drill e house. Don L lança “CARO Vapor II”, sequência da coletânea “Caro Vapor / Vida e Veneno” (2013); o disco de junho de 2025 traz 15 faixas que misturam rap, ritmos brasileiros e referências à MPB, com o capitalismo tardio como tema central. Emicida volta com “Emicida Racional VL 2 – Mesmas Cores & Mesmos Valores”, álbum já consagrado no cenário nacional.
Entre os concorrentes, destaca‑se “Terra Vermelha: Do interior pro interior”, de Matuto S.A., nome artístico de Vinicius Comparini Arcolino, MC, trompetista e produtor nascido em Franca, interior de São Paulo. O álbum, distribuído pela Symphonic Brasil e financiado pelo ProAC SP, saiu em março de 2026 com 14 faixas que exploram pertencimento e a vivência do Brasil profundo, colocando a viola caipira sobre batidas de rap.
Vinicius explicou que o projeto nasceu da pesquisa de ritmo e tonalidade que deu origem ao movimento “Regional Beat”. A proposta consiste em mesclar a estrutura rítmica da música caipira, tipicamente em compasso 3/4, com o rap, que costuma usar 4/4, além de conciliar tonalidades maiores da música caipira com os tons menores predominantes no rap. O resultado, segundo o artista, é uma identidade sonora própria que ultrapassa o seu próprio nome.
Em entrevista à Rolling Stone Brasil, Matuto S.A. reconheceu a condição de underdog na disputa, mas ressaltou o peso simbólico da indicação: “Cara, me sinto muito honrado e feliz porque acredito que estou representando não só o Matuto S.A., mas uma gama de artistas independentes também”. Não é a primeira vez que artistas fora do grande circuito ganham visibilidade; como já relatamos em nossa cobertura sobre Tia Ray, que se tornou a primeira cantora chinesa a estrelar um show no Grammy Museum, a busca por reconhecimento nas premiações internacionais tem se intensificado.
Franca, cidade natal de Vinicius, tem 352.536 habitantes (Censo 2022 do IBGE) e ocupa cerca de 605 km². Conhecida como capital nacional do calçado e do basquete, a economia local também se apoia no café, que em 2020 respondeu por mais da metade das exportações do município, segundo a Revista Cultivar.
Vinicius cresceu ouvindo moda de viola, mas sua formação musical inclui mais de 15 anos de imersão no hip‑hop, embora “Terra Vermelho” seja seu primeiro disco solo. Entre as influências citadas estão Chico Science, Nação Zumbi, Otto, mestre Ambrósio e Mundo Livre S.A., nomes que marcaram a cena dos anos 1990.
Como artista independente, Vinicius admite não contar com grandes números nas redes sociais nem no Spotify, mas o reconhecimento pelo Grammy demonstra que o trabalho tem eco na indústria. O movimento Regional Beat, iniciado em 2023, ganhou expressão audiovisual com o documentário “Regional Beat: Uma Antena Parabólica Fincada na Terra Vermelha”, exibido em escolas do interior, na USP de Piracicaba, na Unesp de Franca e em sessões especiais em São Paulo.
Para a candidatura ao Grammy Latino, Matuto S.A. utilizou a Symphonic Brasil como distribuidora e apostou na categoria Artista Revelação, considerada mais acessível por oferecer mais vagas e reunir nomes em início de carreira.
Com informacoes de Rolling Stone Brasil.

