Governo Lula 3 mantém R$ 83 milhões em sigilo no cartão corporativo e nega 22 mil pedidos de LAI
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) desafiou o senador Flávio Bolsonaro (PL) a abrir os sigilos bancário, fiscal e telefônico dele e de seus familiares, mas o próprio governo mantém sob sigilo cerca de R$ 83 milhões em despesas do cartão corporativo da Presidência da República e acumula 22.474 pedidos de acesso à informação classificados como negados desde 2023.
Flávio Bolsonaro se manifestou sobre o desafio de Lula nesta quarta‑feira (21) ao afirmar que aceita abrir os seus sigilos se o petista abrir os de seu ex‑assessor Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, e os da primeira‑dama Rosângela Lula da Silva, a Janja. Na petição protocolada na Justiça Eleitoral, Flávio autorizou o acesso às próprias informações dos últimos 20 anos, mas estabeleceu exigências para que a medida também alcance o presidente e pessoas próximas a ele.
Marcola, ex‑chefe de gabinete da Presidência na gestão Lula 3, é investigado em um dos inquéritos que apuram suspeitas de tráfico de influência envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente. A Polícia Federal identificou repasses de R$ 249 mil da lobista Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha, ao ex‑assessor. Marcola afirma que o valor corresponde a um empréstimo pessoal já quitado, enquanto Roberta diz que o auxílio financeiro ocorreu por amizade. A relação entre os dois é investigada no contexto de suspeitas de favorecimento de interesses privados junto ao governo federal.
As autorizações dadas por Lula e Flávio sobre seus sigilos, entretanto, não significam que já tenham sido quebrados nem que as informações estejam disponíveis para consulta pública.
Enquanto cobra do adversário uma iniciativa de transparência, Lula e seu governo mantêm restrições de acesso a informações sobre despesas públicas e registram milhares de negativas a solicitações feitas com base na Lei de Acesso à Informação (LAI). Lula protocola pedido para abrir sigilos próprio, de filhos e de Janja e cobra Flávio a fazer o mesmo.
Os dados dos gastos do Cartão de Pagamento do Governo Federal (CPGF), conhecido como cartão corporativo, mostram que a maior parte das despesas vinculadas à Presidência da República foi mantida sob sigilo durante o atual mandato. Entre 2023 e agosto de 2026, os gastos totais somaram R$ 84,54 milhões. Desse montante, R$ 83,37 milhões foram classificados como sigilosos, o que representa aproximadamente 98,6% do total desembolsado no período.
Levando em conta apenas os gastos com informações mantidas sob sigilo, em 2023, primeiro ano do terceiro mandato de Lula, a Presidência gastou R$ 24,06 milhões. No ano seguinte, os gastos chegaram a R$ 26,32 milhões. Em 2025, o total foi de R$ 22,73 milhões classificados como sigilosos. Em 2026, os dados disponíveis vão somente até agosto; nesses primeiros oito meses, a Presidência já desembolsou R$ 10,25 milhões por meio do cartão corporativo com dados sob sigilo.
Nesse tipo de gasto, é possível ver apenas o mês e o ano do gasto, o valor e a unidade administrativa (ex.: Gabinete Pessoal do Presidente, Vice‑Presidência, Secretaria‑Geral) que fez a transação. Não é possível ter acesso à data exata do gasto, ao nome do portador do cartão ou ao fornecedor do bem ou serviço adquirido, como hospedagem, combustível, alimentação, material de consumo ou apoio logístico.
A classificação de despesas relacionadas à Presidência costuma ser fundamentada na proteção da segurança do presidente, de seus familiares e das equipes responsáveis por sua proteção. Informações sobre deslocamentos, hospedagens, itinerários e operações de segurança podem expor rotinas e comprometer a atuação dos agentes públicos.
O governo também negou acesso a correspondências privadas de Lula a outros chefes de Estado, reforçando a postura de sigilo em comunicações diplomáticas.
Os dados do painel Busca LAI registram 22.474 solicitações classificadas como “Acesso Negado” no Poder Executivo federal entre 2023 e outubro de 2026. O maior número de negativas ocorreu em 2023, quando foram registrados 6.292 pedidos nessa categoria. Em 2024, foram 5.613; em 2025, 5.535; e, neste ano, até outubro, o total chegou a 5.034. Os números mostram que as negativas se mantiveram acima de 5 mil por ano ao longo de todo o período analisado.
Entre as justificativas previstas nas regras de acesso à informação estão a proteção de dados pessoais, o sigilo legal de documentos, a preservação de informações relacionadas à segurança e determinadas hipóteses de documentos que podem ser restritos por lei.
Com informacoes de Gazeta do Povo.

