Faraó dos Bitcoins: depoimentos exclusivos revelam destino da fortuna criptografada guardada na PF
O portal Fantom.news obteve acesso exclusivo aos depoimentos de Glaidson Acácio dos Santos, conhecido como "Faraó dos Bitcoins", e de sua esposa e sócia Mirelis Diaz Zerpa, que detalharam o funcionamento do esquema fraudulento que arrecadou bilhões de reais em criptomoedas.
Um dispositivo do tamanho de um pen drive contém as chaves digitais de uma das maiores fortunas criptográficas do país; o aparelho está trancado em um cofre da Polícia Federal e a única pessoa que conhece a senha é Glaidson Acácio dos Santos.
Preso na Operação Kryptos, em 2021, o "Faraó dos Bitcoins" responde na Justiça Federal por crimes contra o sistema financeiro, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
Durante o interrogatório, a juíza perguntou se ele poderia declarar o montante acumulado. Glaidson respondeu: "Não, Vossa Excelência, por..." e, ao ser questionado se usaria o direito ao silêncio, afirmou: "Minha integridade... minha integridade física."
Em Cabo Frio, no Rio de Janeiro, Glaidson fundou a G.A.S. Consultoria e Tecnologia Ltda., empresa que atraiu milhares de investidores com a promessa de rendimentos de 10% ao mês.
Ao ser indagada sobre a forma de garantir esse rendimento, Glaidson explicou: "Como eu captava esse recurso de várias pessoas, Vossa Excelência, eu me transformo numa 'baleia'." No mercado de moedas digitais, "baleia" designa quem detém quantidade suficiente para influenciar o preço. Ele acrescentou: "Então, como 'baleia', eu consigo manipular outras criptomoedas. E entro em contato com outras 'baleias' e vamos falar o seguinte: 'Ó, você aposta na queda, alavanca 10 vezes que nós vamos derreter o preço. Vamos despencar o preço de uma determinada criptomoeda'."
Glaidson ainda declarou ao juiz: "É, mas assim, o mercado... O mundo é capitalista, Vossa Excelência." Quando a juíza comentou que no mercado há quem ganhe e quem perca, ele respondeu: "Tem uns que ganham, mas nem todo mundo vai ganhar."
Em outro momento, o réu afirmou que os valores não eram de "10 milhões, nem 50 milhões", mas sim de "200, 300 milhões de dólar numa...".
O Ministério Público Federal questionou a suposta ilegalidade da prática, ao que Glaidson respondeu: "Não, não é ilegalidade, né? É falta de ética."
Os recursos eram captados por meio de milhares de contratos individuais, alguns de pequeno valor. Glaidson citou o ditado: "De grão em grão, a galinha enche o papo" para ilustrar a estratégia de acumulação.
Segundo o especialista Felipe D'Urso, "O mercado cripto ficou desregulado por um grande período de tempo. No início do Bitcoin em 2008 até 2022, nós não tínhamos uma regra específica pra esse mercado."
Glaidson relatou que seus funcionários utilizavam helicópteros para ir até São Paulo, onde transportavam o recurso em espécie dos clientes e o repassavam para a carteira da G.A.S.
De acordo com a Polícia Federal, a rede informal de investimentos movimentou mais de R$ 38.223.489.348,97.
No tribunal, Glaidson reafirmou seu papel na empresa, declarando ser "idealizador da empresa, fundador da empresa, presidente da empresa, gestor da empresa, responsável da empresa".
Em 2024, quando ainda era considerada foragida, Mirelis Diaz Zerpa foi presa em Chicago e, um ano depois, deportada para o Brasil.
Ao depor, Mirelis afirmou: "Meu trabalho sempre foi estudar criptomoedas, multiplicar o dinheiro em criptomoedas e fazer trading de criptomoedas." Ela explicou que "trade" é a compra e venda de moedas digitais para lucrar com a variação de preços.
Para o Ministério Público Federal, Mirelis integrava o comando do esquema e responde por crimes financeiros e organização criminosa. Ela negou as acusações, afirmando que agia como empregada de Glaidson.
Quando questionada se agia como empregada, Mirelis respondeu: "Exatamente." Acrescentou ainda: "O que ele fazia comigo? 'Mirelis, você multiplica esse dinheiro e me paga uma porcentagem desse dinheiro'."
Sobre o controle das entradas de clientes e investidores, ela declarou: "Nunca cuidei da administração disso."
Sobre o processo judicial, Mirelis disse: "Com todo respeito, para mim foi como ler um livro de ficção científica."
Com informacoes de G1.

