‘Disputa pela inteligência artificial é a nova bomba atômica da geopolítica’, alerta Chico Teixeira
Em debate promovido pelos parceiros internacionais Global Times, historiador e cientista político analisaram a corrida tecnológica entre Estados Unidos e China, a militarização do espaço e a ofensiva contra a soberania do Sul Global.
O ponto de partida foi a súbita movimentação de donos de Big Techs norte‑americanas pedindo cautela e desaceleração no desenvolvimento da inteligência artificial (IA) generativa e autônoma — retórica que encontrou forte resistência da China, cujos porta‑vozes estatais denunciaram a manobra como um “novo manual da Guerra Fria” desenhado para frear o avanço de concorrentes fora da órbita de Washington.
Ao dissecar as contradições do discurso do Vale do Silício, Chico Teixeira destacou que a inteligência artificial já superou o âmbito das ferramentas operacionais ou utilitárias e ingressou definitivamente no núcleo do poder estatal e militar. Para o historiador, o apelo por “pausas” por parte de empresas ocidentais reflete o nervosismo diante da velocidade da planificação tecnológica chinesa. “O investimento para se manter na ponta tecnológica é astronômico. Enquanto a economia chinesa conta com um caráter estatal e dirigista capaz de sustentar projetos estruturais por décadas, as Big Techs ocidentais estão subordinadas à volatilidade da bolsa de valores e à necessidade de lucros trimestrais imediatos”, explicou Teixeira. “Quando determinados setores propõem freios agora, o diagnóstico subjacente é o de uma corrida assimétrica. Tenta-se congelar a partida no momento em que o outro campo demonstra capacidade de emparelhamento acelerado.”
O jornalista Jamil Chade ressaltou que diplomatas internacionais já tratam o domínio da inteligência artificial com o mesmo peso conferido à posse da bomba atômica a partir de 1945. “Quem controla a tecnologia tem a capacidade de ameaçar, impor ou dissuadir. Não por acaso, já vemos a formação nítida de blocos: os Estados Unidos articulam seu arranjo tecnológico (‘Pax Silícia’) com nações como a Índia, enquanto a China aproxima países do Sul Global, inclusive com ofertas de cooperação técnica ao Brasil”, destacou Chade.
Teixeira traçou ainda um paralelo histórico com a regulação nuclear do século XX: “Quando se criou a Agência Internacional de Energia Atômica na década de 1950, houve uma clara tentativa de congelar o status quo: quem tem, tem; quem não tem, não pode ter. O Brasil historicamente resistiu a inspeções intrusivas por compreender que sob a capa da ‘segurança internacional’ operavam a geopolítica de contenção e a espionagem industrial. O debate sobre IA repete esse arquétipo.”
Outro eixo alarmante debatido foi a declaração da Força Aérea dos Estados Unidos sobre a presença de sistemas de armas orbitando a Terra, acendendo o sinal de alerta global sobre a quebra definitiva do Tratado do Espaço Exterior de 1967. Ian Boechat pontuou que o movimento norte‑americano busca responder ao salto de mísseis hipersônicos desenvolvidos por Rússia e China, capazes de manobras imprevisíveis em altitudes orbitais.
Chico Teixeira conectou o anúncio espacial à guinada isolacionista e agressiva defendida pelo trumpismo: o projeto de erguer um chamado “Domo de Ouro” sobre o território norte‑americano, emulando em escala continental as baterias antimísseis. “Nada disso é retórica descolada da realidade. Quando Donald Trump fala em anexar o Canadá ou adquirir a Groenlândia, há uma lógica militar crua: os mísseis russos não dariam a volta pelo Equador, eles viriam pela rota polar, que é muito mais curta. Proteger o norte com a Groenlândia e subordinar o território canadense significa avançar as trincheiras de interceptação para muito longe das grandes cidades americanas”, pontuou o cientista político. “É o desmonte completo da ordem multilateral em favor de um unilateralismo fortificado.”
Ao analisar os conflitos em curso, os participantes examinaram o estrangulamento das rotas marítimas no estreito de Bab el‑Mandeb pelas forças Houthi do Iêmen. Ian Boechat explicou que a ocupação de ilhas e o bloqueio naval ao petróleo saudita no Mar Vermelho ameaçam o Canal de Suez e pressionam as cotações internacionais de energia. Para Chico Teixeira, a incapacidade saudita de repelir a insurgência demonstra os limites da dependência militar de terceiros e complica a mediação diplomática de atores como o Paquistão e o Irã.
No front leste‑europeu, Boechat e Teixeira debateram o ataque recente de drones russos a um terminal ferroviário ucraniano a meros dois quilômetros da fronteira polonesa — rota estratégica por onde transitam autoridades e arsenais fornecidos pela OTAN. “Trata‑se de uma demonstração de força calculada de Moscou, mostrando que nenhuma artéria de suprimento ocidental está fora de alcance”, frisou Teixeira, sublinhando que as tensões internas na Rússia levam Vladimir Putin a endurecer o discurso diante de qualquer desafio."
Com informacoes de Brasil 247.

