Dia de Finados perde público: tradição funerária em declínio no Brasil
A coluna semanal do historiador Leandro Karnal, que costuma abordar ética, religião, comportamento e atualidades, traz nesta crônica a constatação de que o Dia de Finados brasileiro, antes um forte teatro afetivo nacional, hoje se apresenta como uma peça em cartaz com plateia rarefeita.
O cenário clássico — família reunida, flor na mão, caminho até o jazigo, pano úmido passando na pedra fria, oração breve e silêncio constrangido — tem se tornado cada vez menos frequente, substituído por um “scroll infinito” nas telas.
A origem da data remonta ao século X, quando o abade Odilon, do mosteiro de Cluny, na França, estabeleceu, por volta de 998, o dia 2 de novembro como ocasião de oração pelas almas, possivelmente motivado pelo temor do fim do mundo no ano 1000, embora medievalistas atuais questionem se esse medo seria uma lenda posterior.
Nos primeiros séculos, os cristãos enterravam seus mortos nas catacumbas; na Idade Média, os nobres eram sepultados dentro das igrejas, sob as lajes por onde os vivos caminhavam, criando a perturbadora situação de “pisar no avô” durante a missa.
Somente no século XIX o cemitério passou a se afastar do templo, tornando‑se um espaço público, laico, higienizado e organizado como uma cidade paralela, marcando o processo de secularização da morte.
Anne Martin‑Fugier, em “Os Ritos da Vida Privada Burguesa” (História da Vida Privada, vol. 4, Companhia das Letras), indica 1850 como o início da popularização das visitas aos cemitérios e registra que, em 1902, “em 1902, registram‑se 350 mil visitas aos cemitérios de Paris no Dia de Finados, ou seja, mais de 10% da população”.
O luto também possuía regras sociais rígidas: a viúva mantinha “luto fechado”, vestindo exclusivamente preto e proibindo o uso de perfume; com o tempo, passou a usar joias de azeviche, e o luto burguês se estendia à casa, aos empregados e a objetos como papéis de carta e lenços com bordas negras, sendo um código que atingia sobretudo aristocratas e burgueses, mas que servia como exemplo de vida superior na sociedade. A autora observa que “o século 19 tem medo de desritualizar‑se, e assim se apegasse a um modelo ritual antigo, inspirado pelo rei”.
Cada cultura desenvolveu seu próprio jeito de lidar com a morte: no México celebra‑se o Día de los Muertos com altares coloridos, caveiras de açúcar e fotografias dos ausentes; no Japão, o Obon marca o retorno dos ancestrais, com lanternas acesas para guiá‑los; em Nova Orleans, o jazz acompanha os cortejos.
No Brasil, o primeiro crematório foi construído em São Paulo em 1974. Segundo o Sindicato dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil, hoje entre 8 % e 9 % dos mortos são cremados, número que, embora pareça pequeno, duplicou nas duas últimas décadas e continua em ascensão.
O aumento da cremação implica que quem é cremado não possui túmulo, e quem não tem túmulo não recebe visita no dia 2 de novembro, fazendo o ritual perder endereço físico.
Outro fator silencioso é a religião. Dados do IBGE mostram que a parcela de brasileiros “sem religião” subiu de 0,2 % em 1940 para 7,9 % em 2010; o censo de 2022 registra 9,3 % e a tendência de crescimento se mantém. Embora a ausência de religião não signifique ausência de luto, costuma implicar a falta de um ritual codificado, e o Dia de Finados permanece, predominantemente, uma prática católica no país.
Com o recuo do catolicismo, o calendário litúrgico também recua. Os evangélicos, que crescem em paralelo, não adotam a prática; seus rituais mortuários tendem à secularização, com velórios fora dos templos, maior aceitação da cremação e “significativo desinteresse pelos cadáveres depois do sepultamento”.
O historiador francês Philippe Ariès demonstrou que o Ocidente passou da “morte domada” da Idade Média — presente em casa, cercada pela família — para a “morte interdita” do século XX, escondida no hospital, higienizada e envergonhada. Atualmente, vivemos uma terceira fase, na qual “a morte é evitada até na memória”, manifestando a tanatofobia, o horror à morte.
Karnal reflete que o título da crônica pode ter afastado leitores, mas sua experiência pessoal revela que a visita ao cemitério era uma lição sobre o tempo: “Um cemitério cheio traduz o que nenhuma palestra ensina: somos passageiros breves e frágeis”. Ele ainda menciona que a suprema pobreza é descrita como “não ter onde cair morto”, sugerindo que hoje a verdadeira indigência pode ser “não ter quem se lembre da nossa existência”, ou seja, “indigência de memória”.
Com informacoes de Estadão.

