Crise de fertilizantes pode pressionar preços de arroz, café e trigo
A alta dos preços dos fertilizantes e a dificuldade de transporte podem levar agricultores a reduzirem a adubação nesta safra, afetando a produção de alimentos importantes para a cesta de consumo do brasileiro, como arroz, laranja, café e trigo. Não é a primeira vez que o setor agrícola enfrenta desafios, como mostramos anteriormente, com o El Niño podendo afetar a safra recorde de soja em 2026/27.
O Oriente Médio é o quarto maior fornecedor do Brasil, depois da Europa, Ásia e África. A região tem um papel central no mercado de fertilizantes por causa do Estreito de Ormuz, que tem fluxo de transporte instável desde o início da guerra entre Estados Unidos e Irã. Além de rota fundamental para o mercado de petróleo, essa é a rota por onde passa cerca de um terço do comércio marítimo de fertilizantes.
Como consequência dos períodos em que a rota ficou fechada durante a guerra, os preços dispararam e o acesso dos produtores ficou mais difícil. A dificuldade de acesso ao petróleo também tem gerado escassez de enxofre no mundo. O insumo é usado na produção de fertilizantes fosfatados, dos quais o Brasil importa 80% do que consome.
Resultados é que, entre janeiro e maio, o país importou cerca de 45% menos do produto que no mesmo período do ano passado. Diante desse cenário, indústrias de fertilizantes no Brasil têm reduzido a produção, caso da Mosaic, uma das maiores empresas globais do setor.
As lavouras que não recebem a adubação adequada podem ter uma queda na produtividade, afetando a quantidade disponível no mercado, a qualidade dos produtos e, consequentemente, os preços, explica Felippe Serigati, pesquisador da FGV Agro. A falta de fertilizante por si só pode não causar um impacto tão grande, mas é mais um problema que se soma ao cenário no campo e que se torna preocupante.
Além da adubação, o agronegócio deve enfrentar um forte El Niño neste ano. O fenômeno é marcado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico, o que altera os padrões do clima no mundo. Nas regiões produtoras, ele pode causar secas e chuvas fora de hora, prejudicando a plantação.
Para o analista de insumos do Rabobank Bruno Fonseca, um dos principais efeitos da alta dos fertilizantes é o aumento do custo de produção, em um momento em que os agricultores já enfrentam endividamento. "Temos produtores que não tiveram condição de acessar o crédito, de comprar fertilizantes e vão tender a reduzir o uso do adubo", afirma o analista.
Segundo Fonseca, o único adubo que poderia ser retirado totalmente da lavoura nesses casos seria o fósforo, já que existe um estoque do elemento no solo. Mas, neste ano, isso não deve acontecer. "Parte desse estoque no solo já vem sendo consumido nos últimos anos, não vai ser possível reduzir muito", explica.
Para Wharlhey Nunes, analista da Consultoria Agro do Itaú BBA, os grandes produtores não devem ser muito impactados. "Muitos deles contam com tecnologia em níveis altos e ideais de aplicação por um tempo. Então, isso cria um certo resíduo do solo, principalmente para nutrientes", explica.
Além disso, ele concorda que agricultores menores, que dependem do mercado local para comprar insumos e não têm acesso fácil nem suficiente ao crédito devem reduzir a aplicação. Ele também acredita que isso deve ocorrer entre produtores de culturas com menor rentabilidade, como trigo, café, laranja e arroz.
Para os especialistas, apesar da redução do uso de fertilizantes, os impactos podem ser menores se as chuvas ocorrerem nos períodos adequados para o desenvolvimento das lavouras. Mas, em ano de El Niño, isso pode não acontecer. O Brasil é altamente dependente das importações para suprir a demanda de fertilizantes: o país compra do exterior 85% do que consome.
Com informacoes de G1 Agronegócios.

