Vacina Shingrix contra herpes-zóster reduz risco de infarto e AVC em idosos, aponta estudo da Nature Medicine
A vacina recombinante Shingrix, indicada contra o herpes-zóster, foi associada a um risco menor de eventos cardiovasculares em pessoas com 60 anos ou mais, conforme revela um estudo divulgado hoje na revista científica Nature Medicine.
A pesquisa comparou a incidência de doença isquêmica do coração, insuficiência cardíaca e AVC isquêmico ao longo de sete anos em adultos vacinados pouco antes e pouco depois de uma troca rápida de vacinas contra herpes-zóster nos Estados Unidos, ocorrida entre 2017 e 2018.
As diferenças fundamentais entre os dois imunizantes residem na tecnologia de fabricação e no nível de segurança: a vacina antiga, baseada em vírus vivos atenuados, continha o agente infeccioso ativo porém enfraquecido, limitando seu uso em indivíduos com sistema imunológico debilitado; a nova vacina recombinante utiliza engenharia genética para apresentar ao organismo apenas uma proteína específica e inofensiva do vírus.
Na análise principal, a vacina recombinante foi associada a uma redução de 9% na "carga" de eventos cardiovasculares no período estudado, indicando mais tempo vivido sem diagnóstico de doença cardiovascular em comparação com a vacina de vírus vivo atenuado.
O efeito foi mais evidente para doença isquêmica do coração, com queda de 10% na carga desse desfecho, e para insuficiência cardíaca, com redução de 12%, observadas em ambos os sexos. Além disso, foi identificada associação com menor risco de AVC isquêmico especificamente em homens.
Os autores ressaltam que os dados ainda não comprovam relação de causa e efeito. "Se for confirmado em ensaios clínicos, vacinar adultos mais velhos contra herpes-zóster poderia prevenir centenas de milhares de doenças coronarianas, AVCs e casos de insuficiência cardíaca no mundo, tornando-se uma das intervenções mais impactantes que poderíamos oferecer para proteger tanto o cérebro quanto o coração na velhice. O efeito pode ser enorme", afirmou o médico Maxime Taquet ao The Guardian.
Especialistas apontam que o próximo passo é testar a hipótese em estudos controlados. "Um ensaio randomizado seria a melhor forma de responder com confiança se vacinas recombinantes realmente trazem os benefícios vistos aqui em comparação com vacinas de vírus vivo, mas, até que esse ensaio exista, este estudo oferece algumas das evidências observacionais de melhor qualidade apoiando um efeito da recombinante versus a de vírus vivo para desfechos cardiovasculares", declarou o pesquisador Hugo Pedder, também ao The Guardian.
O estudo utilizou prontuários eletrônicos de uma rede de saúde dos EUA, comparando duas coortes de 36.460 pessoas cada, todas com 60 anos ou mais. No grupo vacinado em 2017, quase todas receberam a vacina de vírus vivo; no grupo de 2018, a maioria recebeu a recombinante, permitindo a comparação entre os tipos de vacina em janelas equivalentes de seis meses.
Embora os autores tenham realizado ajustes estatísticos, o desenho observacional pode conter fatores não medidos. As limitações típicas de estudos com prontuários incluem diagnósticos não validados, ausência de dados detalhados sobre renda e hábitos de vida e impossibilidade de afirmar causalidade.
Os pesquisadores defendem a realização de ensaios clínicos randomizados para confirmar a proteção cardiovascular da Shingrix. "Se for confirmado em um ensaio randomizado, o efeito da Shingrix seria equivalente ao de anti-hipertensivos", comparou Taquet, ao referir-se à magnitude potencial do achado.
Quanto ao mecanismo subjacente, o artigo levanta a hipótese de mudanças imunológicas e no endotélio (camada interna dos vasos) induzidas pela vacina recombinante, sugerindo necessidade de investigações mecanísticas. Os autores observaram que a associação diminui com o tempo, sendo mais evidente na primeira metade do acompanhamento e perdendo força na segunda, o que abre discussão sobre a duração da proteção e a necessidade de doses adicionais, ainda sem resposta definitiva.
Com informacoes de UOL.

