Oceano Profundo da Antártida Sofre Mudanças Drásticas
Uma pesquisa internacional identificou que a camada mais profunda do Oceano Austral, formada pela chamada Água de Fundo Antártica (AABW), vem diminuindo em volume desde 2002 e apresentou uma aceleração significativa na perda a partir de 2015. O fenômeno foi observado em toda a região ao redor da Antártida. O levantamento, publicado recentemente pelo Programa Antártico Australiano, indica que a redução desse reservatório de água fria e densa está associada à queda na formação de gelo marinho e ao aumento da entrada de água doce no oceano provocado pelo aquecimento do continente.
A análise foi feita por pesquisadores da Parceria do Programa Antártico Australiano, vinculada à Universidade da Tasmânia, que combinaram dados de satélites, medições realizadas por navios e informações coletadas por boias oceânicas para reconstruir as mudanças ocorridas entre 2002 e 2023. A Água de Fundo Antártica tem papel central no funcionamento dos oceanos porque, ao se formar, afunda até as maiores profundidades e se espalha pelos oceanos Atlântico, Índico e Pacífico. Esse processo movimenta parte da circulação global conhecida como “esteira transportadora” oceânica.
O estudo aponta que esse mecanismo está perdendo força. A entrada de água doce proveniente do derretimento de plataformas de gelo reduz a quantidade de sal na superfície do oceano, tornando a água menos densa e dificultando sua descida para as regiões profundas. A pesquisa concluiu que a AABW perdeu aproximadamente 3% de seu volume circumpolar acumulado até 2023, considerando como referência a quantidade registrada em 2002. A velocidade da redução após 2015 foi quatro vezes maior que a tendência observada no período anterior.
Os pesquisadores relacionaram esse avanço da perda ao declínio acelerado do gelo marinho antártico registrado desde 2016. Conforme o estudo, as alterações na extensão do gelo e as variações no volume da Água de Fundo Antártica apresentaram forte relação entre si. O levantamento foi conduzido por meio do SatGEM-2, um modelo que combina informações da altura da superfície do mar obtidas por satélites com dados de temperatura e salinidade coletados em diferentes profundidades.
De acordo com o autor principal do estudo, James Wyatt, pesquisador da Parceria do Programa Antártico Australiano na Universidade da Tasmânia, a reconstrução da evolução da AABW foi possível graças à união de diferentes fontes de monitoramento oceânico. O pesquisador também explicou que o método desenvolvido permite acompanhar alterações próximas do tempo real em toda a coluna de água do Oceano Austral, inclusive em locais com pouca cobertura de medições.
Segundo o coautor Nathan Bindoff, professor do Instituto de Estudos Marinhos e Antárticos e bolsista laureado do Conselho Australiano de Pesquisa, o conjunto de mudanças observadas indica uma desaceleração da circulação profunda dos oceanos. A redução da Água de Fundo Antártica preocupa os cientistas porque esse sistema transporta oxigênio para grandes profundidades, armazena carbono por longos períodos e ajuda a controlar a distribuição de calor no planeta. Alterações nesse processo podem influenciar o clima e o nível do mar por séculos.
Com informacoes de Olhar Digital.

