O debate que o Brasil evita: histórico de ausências e modelos internacionais

Por Tainá Ribeiro Alves em Rio Verde, GO 26/08/2026 20:40
O debate que o Brasil evita: histórico de ausências e modelos internacionais

Foto: via O GLOBO

Na reunião promovida pela Band no último domingo, nenhum dos quatro candidatos presentes alcançou sequer 10% das intenções de voto nas principais pesquisas, evidenciando a fragilidade de suas bases eleitorais.

O Brasil possui um histórico longo de recusas: Jânio Quadros declinou o primeiro convite da TV em 1960; Collor evitou debater no primeiro turno de 1989; Fernando Henrique Cardoso não participou de nenhum debate na campanha de reeleição de 1998, tendo comparecido apenas ao primeiro em 1994; Lula ausentou‑se dos debates do primeiro turno em 2006 e repetiu a falta em 2022; e Jair Bolsonaro, após a tentativa de assassinato em 2018, não retornou a esses fóruns.

Em 2022, dois debates do primeiro turno foram cancelados quando os candidatos favoritos anunciaram que não compareceriam, demonstrando a vulnerabilidade do modelo atual.

Segundo a legislação eleitoral vigente, as emissoras são obrigadas apenas a convidar partidos que tenham eleitos cinco ou mais deputados, sem imposição de comparecimento por parte dos candidatos.

Em contraste, a Argentina transformou o debate presidencial em lei obrigatória, aplicando sanções que reduzem o tempo de propaganda eleitoral gratuito para quem não comparecer.

No México, o Instituto Nacional Eleitoral – órgão autônomo e desvinculado de qualquer emissora – organiza os debates desde 1994, assegurando neutralidade.

A Espanha conta com a Academia de Televisão, entidade neutra que coordena os debates, e uma reforma aprovada em 2025 tornou a participação obrigatória nas emissoras públicas.

Na França, embora não exista legislação específica, há uma tradição iniciada em 1974 que estabelece o confronto televisivo entre os dois finalistas do segundo turno.

Nos Estados Unidos, desde 1976, é praticamente impensável que candidatos dos dois grandes partidos evitem os debates, mesmo com mudanças nas regras a cada ciclo, como em 2024, quando as campanhas negociaram diretamente com as emissoras fora da tradicional Comissão de Debates.

O padrão observado nesses países indica que, quando há um conjunto de emissoras ou uma autoridade eleitoral – ou ainda uma instituição neutra como a Academia espanhola ou a Comissão de Debates americana – concentrando os debates em poucos eventos de grande peso simbólico, a ausência torna‑se custosa para o candidato.

Quando a cobertura se fragmenta entre Band, Globo, Record e SBT, cada uma promovendo seu próprio debate, o candidato ganha a possibilidade de escolher a plateia, evitar audiências desfavoráveis e ainda garantir presença suficiente para avançar ao primeiro turno.

O conceito de “pool” não se resume a uma questão técnica de produção; ele gera maior audiência, permitindo que mais eleitores assistam ao confronto.

Essa dinâmica converte o debate de um evento dispensável em um compromisso público que nenhum candidato competitivo pode se dar ao luxo de ignorar.

Para o Brasil, duas alternativas são apresentáveis e não mutuamente exclusivas: seguir o modelo argentino, instituindo lei que obrigue a participação e imponha penalidades em tempo de propaganda; ou adotar o caminho mexicano e espanhol, criando um organismo único, técnico e desinteressado na audiência que substitua a competição entre emissoras por um número reduzido de debates relevantes.

O modelo vigente, em que cada líder ou líderes de campanha aprendem a selecionar seu público, priva o eleitor brasileiro – ao contrário dos argentinos, mexicanos, espanhóis ou americanos – do direito básico de acompanhar ao vivo, sem cadeiras vazias, quem pretende governá‑lo.

Alguns argumentam que a recusa dos candidatos decorre do contexto atual, marcado por maior polarização, diminuição da relevância da TV tradicional e outros fatores. Contudo, como economista, aprendi que, independentemente do cenário, o desenho de incentivos é decisivo para minimizar ou potencializar tais comportamentos.

Com informacoes de O GLOBO.

Tainá Ribeiro Alves

Sobre o Autor: Tainá Ribeiro Alves

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