Missão chinesa desvenda mistério dos ventos solares

Por Cosmo Ricardo Nunes em Rio Verde, GO 21/07/2026 08:30
Missão chinesa desvenda mistério dos ventos solares

Foto: via Olhar Digital

Uma análise inédita de amostras coletadas no lado oculto da Lua revelou que a magnetosfera da Terra influencia diretamente a forma como o vento solar atinge a superfície lunar. O estudo, publicado na revista Nature Geoscience, mostra que os dois hemisférios da Lua são expostos a partículas solares com velocidades e energias diferentes, deixando marcas distintas preservadas no solo lunar.

A pesquisa foi realizada por cientistas liderados pelo Instituto de Geologia e Geofísica (IGG) da Academia Chinesa de Ciências (CAS, na sigla em inglês), com base no regolito trazido pela missão chinesa Chang’e-6. O vento solar é um fluxo contínuo de partículas carregadas de alta velocidade emitidas pelo Sol que atinge diretamente a superfície da Lua há bilhões de anos.

Segundo os pesquisadores, o regolito — camada de solo e fragmentos rochosos que cobre a superfície lunar — funciona como um arquivo natural desse bombardeio, preservando elementos voláteis provenientes do vento solar, incluindo gases nobres, como Hélio. Por serem quimicamente inertes, esses gases constituem marcadores altamente confiáveis para estudar como o vento solar foi incorporado ao solo lunar ao longo do tempo.

Amostras inéditas do lado oculto permitiram comparação direta entre os efeitos do vento solar nos dois hemisférios. A missão chinesa Chang’e-6 retornou à Terra com 1,935 grama de regolito coletado na bacia Polo Sul-Aitken, localizada no lado oculto do satélite natural.

A equipe de pesquisa, liderada pelo pós-doutorando Zhang Xuhang, sob orientação do professor He Huaiyu, ambos do IGG, analisou a composição isotópica dos gases nobres presentes nas amostras. O trabalho contou ainda com pesquisadores da Universidade de Ciência e Tecnologia da China e da equipe responsável pela carga útil de voláteis da missão Chang’e-7.

Durante a análise, os cientistas identificaram diferenças marcantes na composição isotópica do neônio presente nas amostras do lado oculto. A razão média entre os isótopos 20Ne e 22Ne foi de 11,34 ± 0,22, valor significativamente inferior ao encontrado em todas as amostras anteriormente coletadas no lado próximo da Lua.

Segundo os pesquisadores, esse resultado se aproxima da composição isotópica teoricamente esperada após um intenso processo de fracionamento provocado pelo vento solar. Isso indica que o lado oculto passou por um fracionamento isotópico mais intenso, favorecendo o enriquecimento do isótopo mais pesado.

Diferenças também foram observadas no comportamento do criptônio e do xenônio. Nos experimentos de aquecimento gradual realizados em laboratório, o xenônio proveniente do vento solar presente nas amostras da Chang’e-6 foi liberado predominantemente em temperaturas elevadas, formando um único pico de liberação.

Para explicar essa diferença, os pesquisadores atribuem o fenômeno ao chamado efeito de “controle de velocidade” exercido pela magnetosfera da Terra. Durante sua órbita, a Lua atravessa periodicamente a magnetobainha, uma região de transição ao redor da magnetosfera terrestre.

Com base nas análises, os pesquisadores estimam que cerca de 25% de toda a exposição ao vento solar registrada no local de pouso da missão Chang’e-5 foi influenciada por esse vento solar desacelerado pela magnetosfera terrestre. Já o local de pouso da Chang’e-6 não teria sofrido esse efeito de proteção.

Segundo os autores, o estudo fornece a primeira evidência empírica direta, baseada em amostras do lado oculto da Lua, de que a magnetosfera da Terra controla a velocidade do vento solar que atinge a superfície lunar. Esse efeito ficou preservado tanto na profundidade de implantação das partículas quanto nas assinaturas isotópicas dos gases nobres presentes no regolito.

Os pesquisadores afirmam ainda que esses gases nobres podem funcionar como “registros fósseis” das interações entre a magnetosfera terrestre e o vento solar ao longo da história. Quando combinados com registros paleomagnéticos, esses vestígios poderão oferecer uma nova forma de reconstruir a evolução da magnetosfera da Terra ao longo de milhões de anos.

Com informacoes de Olhar Digital.

Cosmo Ricardo Nunes

Sobre o Autor: Cosmo Ricardo Nunes

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