Mente Aberta, Vida Longa: O Segredo para uma Velhice Saudável

Por Viviane Cristina Santos em Rio Verde, GO 09/08/2026 09:12
Mente Aberta, Vida Longa: O Segredo para uma Velhice Saudável

Foto: Skynesher/Getty Images

Por muito tempo, a pirâmide etária, na imensa maioria dos países, era um bem definido triângulo sustentado sobre uma vasta geração jovem, em contraste com um topo pontudo, ocupado por uma minoria mais velha. Pois as aceleradas mudanças da demografia vêm se encarregando de transformar esse formato de forma radical, com o piso se estreitando conforme o contingente de cabeças prateadas só avança. No Brasil, a turma dos superidosos, que ultrapassou a barreira dos 80 anos, crava 4,6 milhões de pessoas, uma disparada de 150% em relação à década passada.

A boa nova é que uma fatia expressiva delas apaga hoje as velinhas do bolo com vigor renovado, esbanjando saúde. Verdade que a genética tem peso relevante na equação, assim como alimentação equilibrada, exercícios em dia e uma rotina social plena, fórmula já bem conhecida. Mas, como a ciência não para, os pesquisadores decidiram verter o olhar para um aspecto inexplorado, ao examinar como o jeito de ser de cada um pode impactar o relógio humano.

O melhor laboratório do mundo para esse tipo de investigação são as chamadas 'blue zones', nacos do planeta com a maior concentração de centenários, que, no início dos anos 2000, entraram no radar por destoarem das usuais curvas de expectativa de vida. E foi para uma delas, a Sardenha, ilha mediterrânea cercada por águas de um turquesa único, que pesquisadores da Universidade de Cagliari, na Itália, partiram para analisar a questão.

Observaram ali uma amostra entre 70 e 100 anos, de nível escolar semelhante e com acesso ao sistema de saúde, cujos integrantes se distinguiam entre si no modo de ser e encarar a vida — justamente este o objeto do inédito mergulho. O trabalho se debruçou então sobre os 'big five', modelo amplamente adotado pela psicologia que mapeia cinco traços decisivos da personalidade — extroversão, abertura a experiências, um senso de responsabilidade aliado à autodisciplina, a capacidade de ser empático e ajudar os outros e, por fim, a tendência de ressaltar emoções negativas.

Resultado: as quatro primeiras características são bastante favoráveis à longevidade junto ao bem-estar, enquanto o último fator, aquele que conduz à instabilidade emocional, tecnicamente conhecido como neuroticismo, conspira contra. Já é bem sabido que a personalidade, apesar de embutir uma dose de carga genética, vai sendo delineada com o passar do tempo, consolidando-­se na maturidade.

Para os estudiosos, isso significa que é possível fazer ajustes aqui e ali para viver mais e melhor e, embora muita gente comece o processo com a cabeça já branca, nunca é tarde. 'Frequentemente, é na velhice, quando não há mais tempo a perder, que as pessoas encontram coragem para abraçar mudanças', afirma a antropóloga Mirian Goldenberg, autora de 'A Invenção de uma Bela Velhice: Projetos de Vida e a Busca da Felicidade'.

No lugar de lamentar que não conseguem executar algumas tarefas como antes, a escolha da maioria é observar o lado cheio do copo, enfatizando aquilo que ainda executam com destreza e satisfação. Um hábito importante no rol dos ingredientes da existência longeva é manter constante convívio social, sem o qual males da mente como a ansiedade e a depressão se tornam mais frequentes — 14% dos que cruzam a fronteira dos 70 registram algum transtorno dessa natureza, de acordo com a OMS.

Pois no laboratório a céu aberto da Sardenha essa é uma lição bem aplicada, tal como visto em vários lares brasileiros que impulsionam as taxas da expectativa de vida. 'Tenho amigas antigas com quem adoro sair para passear, um jeito de espantar a solidão que me traz muita alegria', diz a professora aposentada Ruth Roder, 97 anos.

E os laços não precisam ser apenas entre indivíduos da mesma idade. Uma pesquisa realizada ao longo de oito décadas na Universidade Harvard concluiu que a turma da terceira idade que firma elos afetivos com gente mais jovem revela níveis de felicidade três vezes superiores aos dos que restringem o círculo social à própria geração.

Manter a curiosidade a toda, reforça o estudo da Universidade de Cagliari, leva os indivíduos a se lançar em um leque diverso de atividades, de jardinagem a esportes em grupo, o que pesa a favor. 'Quem apresenta essa característica costuma adotar rotina mais saudável, ativa e aberta a desafios', explica a psicóloga Thaís Juliana Medeiros.

Exemplo disso é o médico José Valdivia, 83 anos. Após a aposentadoria, ele trocou os livros sobre anestesia por literatura de todos os gêneros e, com tempo agora para se dedicar aos hobbies, também estuda línguas estrangeiras. 'Sempre fui disciplinado. A consistência é importante para que essas iniciativas deem fruto', ensina ele, que engrossa a amostra de indivíduos que demonstram o poder de adaptação e abertura à vida, mesmo na velhice.

Com informacoes de VEJA.

Viviane Cristina Santos

Sobre o Autor: Viviane Cristina Santos

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