Jovem rotula Diário de Anne Frank como ‘vitimista’ e gera reação de instituições

Por Viviane Cristina Santos em Rio Verde, GO 18/09/2026 13:46
Jovem rotula Diário de Anne Frank como ‘vitimista’ e gera reação de instituições

Foto: VEJA

Durante a 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, uma jovem brasileira publicou um vídeo no TikTok em que, ao meio da frase “Não que ela se vitimiz… melhor eu não falar.”, classificou O Diário de Anne Frank como o pior livro que leu no ano, gerando enorme repercussão nas redes.

A gravação rapidamente se espalhou, completando a frase e suscitando críticas de internautas, historiadores e criadores de conteúdo. A controvérsia chegou ao Museu do Holocausto de Curitiba e à Federação Israelita, que divulgaram notas em suas contas do Instagram na quarta‑feira, 16 de setembro, defendendo a importância do diário como registro de uma jovem judia perseguida pelos nazistas.

As instituições ressaltaram que relatar sofrimento não equivale a transformar a condição de vítima em identidade, e que falar em “vitimismo” ao analisar o livro demonstra desconhecimento da história que ele narra.

Anne Frank começou a escrever em 12 de junho de 1942, data em que completou 13 anos e recebeu um livro de autógrafos com capa de pano xadrez, o qual transformou em diário. Na primeira página, escreveu: “Espero que você seja uma grande fonte de conforto e ajuda”. Ela manteve o registro escondida dos nazistas até os 15 anos, mas não viveu para ver a publicação.

Nas páginas, não há vitimismo; há uma adolescente que sonhava ser escritora, confidenciando pensamentos como faria a uma amiga. Anne endereçava seus textos a “Kitty”, personagem da série juvenil Joop ter Heul, e descrevia brigas com a mãe, a escassez de alimentos, as mudanças da puberdade e seus sentimentos por Peter van Pels, filho do casal que dividia o esconderijo.

Nascida em Frankfurt, em família judia, Anne deixou a Alemanha com pais e irmã após a ascensão nazista em 1933. Em Amsterdã, a invasão alemã e o endurecimento das leis antissemitas obrigaram a família Frank a viver no “anexo secreto”, o porão do negócio de Otto Frank, seu pai.

A última anotação do diário data de 1º de agosto de 1944; três dias depois, após denúncia, todos foram presos. Apenas Otto sobreviveu e publicou o diário em 1947.

Desde então, a obra vendeu mais de 30 milhões de exemplares, foi traduzida para mais de 70 idiomas e recebeu elogios como o de Eleanor Roosevelt na primeira edição americana: “Escrito por uma jovem, e os jovens não têm medo de dizer a verdade, é um dos comentários mais sábios e comoventes sobre a guerra e seu impacto nos seres humanos que já li”.

Um exemplar chegou clandestinamente à prisão de Robben Island, na África do Sul, onde Nelson Mandela passou 18 dos seus 27 anos de encarceramento. Em 1994, já presidente, Mandela recordou que os presos encontraram encorajamento no diário e o descreveu como obra de uma heroína.

Não é a primeira vez que o Museu do Holocausto de Curitiba e a Federação Israelita se manifestam contra críticas ao Diário de Anne Frank; nossa cobertura de 17/09 já havia abordado a reação dessas instituições a acusações de ‘vitimismo’ feitas por outra jovem brasileira.

Com informacoes de VEJA.

Viviane Cristina Santos

Sobre o Autor: Viviane Cristina Santos

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