Guia de Plutão: 20 anos após a reclassificação, entenda por que o mundo gelado deixou de ser o nono planeta e se a decisão pode ser revista

Por Cosmo Ricardo Nunes em Rio Verde, GO 24/08/2026 14:30
Guia de Plutão: 20 anos após a reclassificação, entenda por que o mundo gelado deixou de ser o nono planeta e se a decisão pode ser revista

Foto: via Olhar Digital

Poucos objetos do Sistema Solar provocam tanto debate quanto Plutão, que completa duas décadas desde que perdeu oficialmente o título de planeta em 24 de agosto de 2006, quando a União Astronômica Internacional (UAI) aprovou uma nova definição para a categoria.

Descoberto em 1930 pelo astrônomo estadunidense Clyde Tombaugh, Plutão passou a ser conhecido como o nono planeta do Sistema Solar e manteve esse status por mais de 70 anos.

A mudança ocorreu quando telescópios mais modernos revelaram uma população de objetos gelados além de Netuno, muitos com características semelhantes às de Plutão, o que colocou em dúvida o que realmente diferenciava um planeta de outros corpos. A descoberta de Éris, anunciada em 2005, intensificou o problema: o objeto tem dimensões próximas às de Plutão e está ainda mais distante do Sol, levantando a questão de por que outros corpos semelhantes não receberiam o mesmo tratamento.

Para evitar que o Sistema Solar passasse a ter dezenas ou até centenas de planetas, a UAI definiu três condições necessárias para que um corpo celeste seja classificado como planeta: (i) orbitar o Sol; (ii) possuir massa suficiente para que sua própria gravidade o torne aproximadamente esférico; e (iii) ter eliminado a maior parte dos objetos de sua região orbital, tornando‑se gravitacionalmente dominante naquele espaço.

Com base nesses critérios, Plutão foi reclassificado como planeta‑anão, categoria que também inclui Ceres, Éris, Haumea e Makemake. Outros objetos distantes, como Sedna e Quaoar, são frequentemente citados em discussões sobre possíveis planetas‑anões.

A mudança de 2006 não transformou Plutão em um asteroide; ele continua sendo um corpo arredondado pela própria gravidade, porém sem domínio gravitacional suficiente sobre sua região orbital.

A comunidade científica ficou dividida. Alan Stern, principal investigador da missão New Horizons da NASA, está entre os críticos da definição adotada pela UAI. New Horizons realizou o primeiro sobrevoo próximo de Plutão em 2015 e, em seguida, estudou o Cinturão de Kuiper, onde também investigou o objeto Arrokoth.

Stern argumenta que o critério de dominância orbital pode ser menos útil para definir a natureza de um mundo do que suas características físicas. Ele aponta que a Terra, apesar de possuir asteroides e outros objetos em regiões próximas de sua órbita, ainda é considerada dominante, mostrando que a expressão “limpar a órbita” pode gerar interpretações equivocadas.

Para os críticos, o aspecto mais importante deveria ser a compreensão do próprio corpo, e não apenas sua relação com vizinhos. Nesse modelo, Plutão seria considerado um planeta por ser um mundo arredondado pela gravidade e por apresentar uma estrutura geológica complexa, com montanhas, planícies, geleiras de nitrogênio e uma atmosfera.

Assim, a controvérsia não se refere à existência ou às características de Plutão, mas à escolha dos critérios usados para definir o que deve ser chamado de planeta.

Embora a decisão de 2006 ainda esteja em vigor, a questão voltou a ganhar destaque após declarações de Jared Isaacman, atual administrador da NASA, que manifestou apoio à ideia de “trazer Plutão de volta”.

Marcelo Zurita, presidente da Associação Paraibana de Astronomia (APA), membro da Sociedade Astronômica Brasileira (SAB), diretor técnico da Rede Brasileira de Observação de Meteoros (BRAMON) e colunista do Olhar Digital, enfatiza que qualquer revisão deve ser tratada com rigor técnico. “A classificação de Plutão não diminui a importância da descoberta de Tombaugh nem a relevância científica deste mundo extraordinário. Vale lembrar também que a decisão de 2006 foi resultado de debates intensos e de uma votação entre astrônomos de todo o mundo, reunidos na principal organização internacional da área. É assim que a ciência funciona: por consenso técnico, não por popularidade ou autoridade política momentânea. A ciência não é estática, mas também não muda porque alguém famoso ou influente resolveu opinar. Mudanças acontecem quando novas evidências ou argumentos robustos surgem e convencem a comunidade especializada.”

Qualquer mudança na UAI dependeria de uma nova votação ou de um eventual consenso científico que levasse à revisão dos critérios atualmente adotados, e isso teria consequências além de Plutão. Algumas luas do Sistema Solar apresentam atividade geológica que também poderia ser reavaliada sob novos parâmetros de classificação.

Com informacoes de Olhar Digital.

Cosmo Ricardo Nunes

Sobre o Autor: Cosmo Ricardo Nunes

Cosmo é o olho do MOTNAF.NEWS voltado pro infinito. De lançamentos da NASA e SpaceX a buracos negros, eclipses, missões a Marte e as descobertas que mudam nossa visão do universo, ele traduz o que rola lá em cima numa linguagem que qualquer terráqueo entende. Se aconteceu no espaço, o Cosmo já está de telescópio apontado.