Embaixador brasileiro na Argentina permanecerá no Brasil por tempo indeterminado

Por Rui Barbosa Oliveira em Rio Verde, GO 30/07/2026 06:35
Embaixador brasileiro na Argentina permanecerá no Brasil por tempo indeterminado

Foto: Luis ROBAYO / AFP

O embaixador do Brasil na Argentina, Júlio Bitelli, se reuniu nesta quarta-feira (29) com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e com o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira. Após o encontro, o governo decidiu manter Bitelli no Brasil por tempo indeterminado enquanto avalia o quadro da relação com Buenos Aires.

Essa não é a primeira vez que o presidente Lula está envolvido em uma situação delicada com um líder estrangeiro, mas desta vez a situação envolve o presidente da Argentina, Javier Milei, que fez declarações consideradas ofensivas ao presidente Lula e ao ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes.

O governo quer analisar como o governo argentino tratará o tema nos próximos dias. Diplomatas brasileiros avaliam que ainda é cedo para o retorno do embaixador. O governo quer esperar a tensão na relação entre os dois países diminuir.

A declaração do ministro das Relações Exteriores da Argentina, Pablo Quirno, de que o governo de Javier Milei não pretende romper relações com o Brasil foi vista como de tom mais conciliador. No entanto, o governo brasileiro ainda está avaliando a situação e não há previsão para o retorno do embaixador.

O embaixador desembarcou em Brasília na segunda-feira (27) depois que o presidente da Argentina, Javier Milei, chamou Lula de 'presidiário' e o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, de 'lixo careca' durante convenção do PL no último sábado (25). Após a declaração do presidente argentino, o governo brasileiro decidiu chamar Bitelli para consultas em Brasília.

De acordo com integrantes do Ministério das Relações Exteriores, a decisão sobre eventual retorno de Bitelli a Buenos Aires vai depender da avaliação do governo brasileiro sobre a 'evolução do quadro'. Isto é, conforme diplomatas, uma decisão só deve ser tomada a partir das próximas conversas do embaixador com o ministro e da avaliação do cenário na Argentina, onde, segundo diplomatas brasileiros, não há sinais de um pedido de desculpas por parte de Milei.

Enquanto isso, a embaixada será conduzida por um encarregado de negócios, número dois na hierarquia da representação diplomática, o que demonstra, em linguagem própria, o desagrado e descontentamento do Brasil com o comportamento de Milei.

O ministro Mauro Vieira e embaixador Júlio Bitelli tiveram uma conversa inicial na segunda-feira (27) no Palácio do Itamaraty, para uma primeira avaliação da situação da relação bilateral com a Argentina. Durante o encontro, que durou cerca de 40 minutos, o chanceler ouviu as impressões de Bitelli sobre o que está acontecendo na Argentina em termos geopolíticos.

A situação econômica e política do país, as perspectivas eleitorais para o ano que vem e a relação do país vizinho com o Brasil. Em um segundo momento, Mauro Vieira deu instruções ao embaixador sobre o que vai ser feito diante do episódio específico envolvendo Milei.

Segundo interlocutores, a ideia colocada no Itamaraty é não fazer um 'escarcéu' em cima do fato. O chanceler já descartou, neste momento, medidas diplomáticas mais duras, como a retirada da representação brasileira da Argentina. Segundo ele, o governo brasileiro pretende preservar os canais de diálogo e buscar esclarecimentos por vias diplomáticas.

O embaixador em Buenos Aires também teve um rápido encontro com o presidente Lula no fim da tarde desta segunda, antes da recepção ao presidente da Coreia, no Itamaraty. Segundo relatos, durante a breve reunião, Lula demonstrou que não querer transformar a situação em uma coisa maior do que é.

Auxiliares do petista afirmam que ele não quer dar uma importância maior a Javier Milei do que ele tem, conforme o petista já tem sinalizado em suas recentes declarações sobre o caso. Nesta segunda, enquanto esperava o presidente da Coreia do Sul, Lee Jae Myung, o presidente Lula ironizou a crise com o presidente argentino, ao ser questionado por jornalistas.

'Quem é esse cara?', respondeu. Além disso de chamar Bitelli para consultas, o Itamaraty também convocou o embaixador da Argentina no Brasil, Daniel Raimondi, para 'transmitir a repulsa' do governo brasileiro e cobrar explicações sobre a atuação de Milei em território nacional.

Em nota, o Ministério das Relações Exteriores classificou o episódio como 'sem precedentes' e 'lamentável'. 'Não há precedentes de um presidente estrangeiro que, em território nacional, enfeixe agressões e ofensas ao Chefe de Estado, às instituições democráticas, inclusive ao Poder Judiciário, e ao povo brasileiro.

É especialmente lamentável que esse episódio infamante envolva o presidente de um país com que o Brasil mantém 203 anos de amizade e cooperação e que tem, no Brasil, o seu principal sócio comercial', diz nota.

Em entrevista à TV Globo, o chanceler Mauro Vieira classificou as declarações de Milei de 'ríspidas, grosseiras e inaceitáveis' e afirmou que a fala foi uma 'interferência em assuntos domésticos'. Declaração de Milei é 'grave e inacietável', diz chanceler Mauro Vieira.

Javier Milei foi um dos convidados que discursaram na convenção do Partido Liberal (PL), que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência neste sábado (25). Ele esteve em São Paulo para o evento.

Em um discurso inflamado, o presidente argentino fez críticas ao socialismo, valorizou a chamada 'onda azul' na América do Sul e chamou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, de 'lixo careca' após ter negada uma visita ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

Milei também associou a candidatura de Flávio ao que chamou de uma transformação política em curso na América Latina e chamou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de 'presidiário'. Segundo ele, países da região estariam abandonando governos de esquerda e adotando políticas liberais na economia, movimento ao qual o Brasil poderia se juntar.

No discurso durante o evento, Milei criticou a negativa. 'A Justiça brasileira não me permitiu visitar meu amigo injustamente encarcerado, quando Lula se cansou de receber dirigentes estrangeiros enquanto esteve preso, entre eles o então presidente da Argentina, Alberto Fernández', continuou.

Horas depois, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, reagiu às falas de Milei e afirmou que as declarações do presidente da Argentina sobre o ministro Moraes são uma 'referência desrespeitosa a magistrado da mais alta Corte do País, feita em solo brasileiro'.

'Tomei conhecimento da declaração do Presidente da Argentina sobre Ministro do Supremo Tribunal Federal. Trata-se de referência desrespeitosa a magistrado da mais alta Corte do País, feita em solo brasileiro, por ato jurisdicional praticado conforme a Constituição e as leis da República Federativa do Brasil', afirmou Fachin.

Em nota, o ministro afirmou ainda que o tribunal 'deplora manifestações incompatíveis com a civilidade que deve caracterizar as relações entre os Estados'. 'Ao reafirmar a plena autonomia do Judiciário brasileiro, a Presidência do STF deplora manifestações incompatíveis com a civilidade que deve caracterizar as relações entre os Estados', completou o ministro.

Com informacoes de G1 Política.

Rui Barbosa Oliveira

Sobre o Autor: Rui Barbosa Oliveira

Rui é a cobertura política do MOTNAF.NEWS com o pé firme na imparcialidade. Congresso, STF, Palácio do Planalto, decisões de governo, votações e o que muda de fato na vida do brasileiro. Ele explica os dois lados, traz o contexto e se apoia em fatos, sem opinião e sem tomar partido. E antes de publicar, confere a notícia nos maiores sites de política para não errar. Política séria, sem grito e sem torcida.