El Niño eleva preços de café, cacau e açúcar e pressiona agro brasileiro com risco de queda no PIB em 2027
Um levantamento da consultoria StoneX, elaborado a pedido do GLOBO, mostra que os contratos futuros de cacau negociados em Nova York acumulam alta superior a 40% desde o início de fevereiro, impulsionados pela preocupação com a safra 2026/2027 e pela crescente probabilidade de um El Niño forte nos modelos climáticos.
O aumento de preços ocorre mesmo em um período de melhora da oferta de curto prazo e recuperação de estoques, indicando que o mercado financeiro está focado nas incertezas climáticas futuras.
Em junho, chuvas excessivas nas principais regiões produtoras de cacau da Costa do Marfim e de Gana geraram relatos de enchentes, dificuldades operacionais e pressão de doenças, prejudicando a produtividade e reduzindo o ritmo das vendas antecipadas.
A StoneX revisou para baixo a projeção de superávit global de cacau, passando de 149 mil toneladas para apenas 25 mil toneladas, ao incorporar o risco climático de forma mais incisiva.
Em agosto, os contratos de açúcar em Nova York acumulam alta de 22%, com preço na faixa de 17 a 18 centavos de dólar por libra‑peso, enquanto no primeiro semestre o valor estava em 14 centavos.
No caso do café, os preços do arábica já subiram 35% e os do robusta, 20% desde meados de junho.
Carolina Giraldo, analista sênior do agronegócio da StoneX, afirma que o El Niño já exerce influência na formação dos preços nas bolsas de Nova York, antecipando um prêmio de risco climático.
Giraldo destaca que, embora os efeitos mais severos do El Niño sejam esperados nos próximos meses, mudanças climáticas já são percebidas, com chuvas acima do padrão no cinturão cafeeiro brasileiro, alterando a qualidade dos grãos, provocando fermentação e dificultando a secagem, além de quebrar a dormência das plantas e antecipar as floradas em Minas Gerais, São Paulo e Bahia.
Segundo Giraldo, o excesso de umidade causou atraso na colheita, provocou a fermentação dos grãos, dificultando a secagem e prejudicando a qualidade final da bebida, afetando especialmente os cafés especiais.
Um relatório do Itaú afirma que o fenômeno deve prejudicar a produção agrícola e contribuir para uma queda do PIB agropecuário em 2027.
O documento indica que a cultura do milho será a mais afetada, pois a alteração no regime de chuvas provoca atraso no plantio da soja e reduz a janela ideal para a “safrinha”, a segunda safra de milho.
O Itaú projeta uma retração de 1,3% do PIB da agropecuária, já incorporando uma queda de 17% no volume de produção de milho.
Julia Gottlieb, economista do Itaú Unibanco, explica que a projeção está muito próxima à média observada nos episódios recentes de El Niño forte, quando as perdas foram de 21% entre 2015 e 2016 e de 13% entre 2023 e 2024, sendo o milho a cultura historicamente mais vulnerável ao fenômeno.
O governo Lula já discute ampliar a compra e os estoques de milho para conter os impactos do El Niño.
O Itaú projeta inflação de 5,1% em 2026, sendo que 0,3 ponto percentual desse total já corresponde ao efeito estimado do fenômeno.
Sergio Vale, economista‑chefe da MB Associados, reforça que o impacto inflacionário maior causado pelo El Niño deve ocorrer em 2027.
Com informacoes de O GLOBO.

