Doenças raras da América do Sul apontam caminho para a próxima pandemia

Por Tainá Ribeiro Alves em Rio Verde, GO 07/09/2026 09:00
Doenças raras da América do Sul apontam caminho para a próxima pandemia

Foto: via Folha de S.Paulo

Expansão urbana tem aproximado moradores de habitats antes rurais, e especialistas apontam as zoonoses como uma ameaça crescente à saúde global.

Quando os colegas ligaram para Matías Lahitte, especialista argentino em doenças infecciosas, já era tarde demais. A paciente, mulher de 65 anos de Rosario – a terceira maior cidade da Argentina – apresentava febre alta, dores musculares e cansaço. Exames de sangue revelaram níveis perigosamente baixos de glóbulos brancos e plaquetas. Menos de uma semana depois, a mulher faleceu.

Os resultados confirmaram a contrair a FHA (febre hemorrágica argentina), doença rara e grave transmitida por roedores, que tanto os Estados Unidos quanto a União Soviética já pesquisaram como possível agente biológico.

"É surpreendente que não se fale mais sobre essa doença persistente e debilitante", disse Lahitte, acrescentando que a FHA pode causar hemorragias internas, convulsões e coma. A morte faz parte de um ressurgimento alarmante da enfermidade, que após décadas de dormência está se espalhando para locais onde nunca havia sido encontrada.

Cientistas alertam que o desenvolvimento humano, a degradação ambiental e as mudanças climáticas fragmentam e alteram os habitats animais, tornando as zoonoses – doenças que passam dos animais para os humanos – mais frequentes e generalizadas.

As mudanças climáticas têm forçado animais como os ratos, transmissores da FHA, a deslocarem‑se para novas áreas, colocando em contato espécies que antes viviam separadas.

Um estudo de 2022 estimou que mais da metade das moléstias patogênicas conhecidas que afetam os seres humanos poderiam ser agravadas pelas alterações no clima.

Além disso, atividades humanas como a agricultura e a urbanização estão aproximando as pessoas de muitos animais portadores de doenças.

"Por causa de todas as mudanças climáticas, e também das alterações na forma como os seres humanos reagem ao clima, estamos basicamente ampliando a pegada humana em lugares onde ela ainda não existia", afirmou Pranav Kulkarni, pesquisador da Universidade da Califórnia em Davis, que estuda enfermidades transmitidas por roedores na América do Sul.

Segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA, cerca de três quartos das moléstias infecciosas emergentes em humanos provêm de animais.

Kulkarni espera que pesquisas como a dele, que buscam prever como as mudanças climáticas e a atividade humana afetam a disseminação de enfermidades, possam ajudar as autoridades de saúde locais a detectar surtos futuros antes que se transformem na próxima pandemia.

"Qualquer uma dessas doenças transmitidas por vetores, por animais ou por roedores é uma forte candidata a ser a próxima grande ameaça", alertou o pesquisador.

Com informacoes de Folha de S.Paulo.

Tainá Ribeiro Alves

Sobre o Autor: Tainá Ribeiro Alves

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