Desvendando o Asteroide Nysa: Um Corpo de Três Lobos com Uma Lua
Óptica adaptativa em luz visível no Grande Telescópio Binocular e no VLT resolveu, pela primeira vez, dois pescoços profundos que circundam o maior asteroide de tipo E conhecido, e revelou um satélite de um quilômetro que ninguém suspeitava existir. Duas noites no Arizona e dez no Atacama bastaram para desfazer 169 anos de ambiguidade.
Nysa não é um corpo alongado simples: são três lobos unidos por dois colli, com uma cavidade de 17 quilômetros de profundidade num objeto de 75 quilômetros de diâmetro. E orbitando o conjunto, detectado por duas técnicas independentes, um satélite de um quilômetro batizado S/2026 (44) 1.
Os gregos contavam que Dioniso, o deus do vinho, do delírio e do teatro, foi criado por ninfas numa terra mítica chamada Nisa, escondido da fúria de Hera. Dioniso é o deus das máscaras: aquele que aparece sempre como outra coisa, que se recusa a ser visto como é. Quando o astrônomo Hermann Goldschmidt descobriu, em 1857, o quadragésimo quarto asteroide conhecido e o batizou de Nysa, não podia imaginar o quanto o nome seria apropriado.
Por mais de um século e meio, esse corpo rochoso do cinturão principal driblou todas as tentativas de revelar sua forma verdadeira. Telescópio espacial, radar planetário, ocultações estelares cronometradas ao centésimo de segundo: cada técnica arrancou um pedaço de pista, nenhuma arrancou a máscara. Até duas noites de 2026.
Na madrugada de 15 de fevereiro e novamente em 21 de março, o Grande Telescópio Binocular, no topo do monte Graham, no Arizona, apontou seus dois espelhos de 8,4 metros para um ponto de luz a mais de 170 milhões de quilômetros de distância. Semanas depois, o Very Large Telescope do Observatório Europeu do Sul, no deserto chileno do Atacama, fez o mesmo em dez noites diferentes.
O que emergiu do processamento dessas imagens não se parece com nada catalogado antes. Nysa não é uma bola achatada nem um amendoim cósmico. É um corpo de três lobos, costurados por dois estrangulamentos profundos que dão a volta completa no objeto, e acompanhado por uma lua de aproximadamente um quilômetro que ninguém sabia existir.
O trabalho que apresenta esses resultados, assinado por Kate Minker, do Observatório Lowell, Anthony Berdeu, do Observatório Europeu do Sul em Santiago, e mais dezessete colaboradores de sete países, foi submetido como carta ao editor da revista Astronomy & Astrophysics e disponibilizado publicamente em 28 de julho de 2026.
O título é direto ao ponto: desmascarando (44) Nysa, evidência de uma estrutura trilobada. Trata-se da primeira vez que um asteroide de porte grande, com dezenas de quilômetros de diâmetro, é resolvido com detalhe suficiente para mostrar uma arquitetura de três componentes unidos por pescoços.
Para entender por que essa descoberta importa, é preciso saber quem é Nysa dentro do zoológico do cinturão de asteroides. Ela é o maior representante conhecido de uma classe rara chamada tipo E, e também o mais brilhante: o único membro da classe com magnitude absoluta inferior a 7.
A classe E deve seu nome à enstatita, um mineral do grupo dos piroxênios, silicato de magnésio de coloração clara. Os meteoritos associados a essa assinatura espectral são os aubritos e os condritos enstatíticos, rochas empobrecidas em ferro oxidado que se formaram em regiões do disco protoplanetário quimicamente reduzidas, pobres em oxigênio disponível.
Esse detalhe tem peso cosmogônico: as análises isotópicas indicam que os condritos enstatíticos são o material que mais se aproxima da composição da Terra primitiva. Estudar um corpo de tipo E é, em certa medida, estudar a matéria-prima com a qual os planetas rochosos foram montados.
Com informacoes de Space Today.

