Descoberta de petróleo na Foz do Amazonas só será "passaporte para o futuro" se mudar modelo de exploração, alerta ex-diretor da Petrobras

Por Tainá Ribeiro Alves em Rio Verde, GO 19/08/2026 07:40
Descoberta de petróleo na Foz do Amazonas só será "passaporte para o futuro" se mudar modelo de exploração, alerta ex-diretor da Petrobras

Foto: via G1

Ildo Sauer, professor do Instituto de Energia e Ambiente da USP e ex-diretor da Petrobras, classificou a recente descoberta de petróleo como "muito animadora", mas ressaltou a necessidade de cautela ao analisar o resultado.

A descoberta foi realizada na bacia da Foz do Amazonas, no litoral do Amapá, a partir do poço Morpho localizado a cerca de 175 km da costa, em águas ultraprofundas.

Em entrevista à BBC News Brasil, Sauer questionou a afirmação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de que o achado na Margem Equatorial seria um "passaporte para o futuro do Brasil", lembrando que a mesma expressão foi utilizada antes do início da exploração comercial do pré‑sal em 2006, mas que o modelo adotado nos últimos 20 anos impediu a concretização da promessa.

Segundo o engenheiro, os recursos do pré‑sal foram "queimados" porque os lucros não foram direcionados para um plano nacional de desenvolvimento econômico e social, que incluiria investimentos em educação pública, saúde pública, previdência, reformas urbanas e agrárias, além de tecnologias que possibilitem uma transição gradual para fontes não fósseis.

Sauer ocupou a direção da Petrobras entre janeiro de 2003 e setembro de 2007, período que abrange o primeiro mandato e o início do segundo mandato do presidente Lula. Anos depois, a Operação Lava Jato revelou um amplo esquema de corrupção envolvendo dirigentes da estatal nos anos 2000 e início dos anos 2010. Em depoimento à CPI da Petrobras em 2014, Sauer afirmou que sua saída não esteve ligada aos esquemas de corrupção, mas a divergências políticas e administrativas sobre a política energética e a gestão da empresa.

A Petrobras comunicou que o poço Morpho apresentou indícios de óleo leve, considerado mais valioso comercialmente, porém destacou que ainda é prematuro estimar o tamanho das reservas e que diversas etapas técnicas são necessárias para avançar na exploração.

Os próximos passos incluem a perfuração de um segundo poço exploratório para confirmar a descoberta, a notificação à Agência Nacional do Petróleo (ANP) para a elaboração de um plano de avaliação, e a realização de estudos geológicos, geofísicos e econômicos que determinarão a quantidade exata de petróleo, os métodos de extração e a viabilidade econômica do projeto.

Sauer apontou que, tipicamente, são necessários no mínimo quatro anos para chegar ao início do desenvolvimento, e que o horizonte para colocar efetivamente o petróleo no mercado varia entre cinco e sete anos.

A crítica central do ex‑diretor não recai sobre a exploração em si, mas sobre a forma como a renda do petróleo é distribuída. Ele argumenta que os ganhos do pré‑sal não se converteram em melhorias proporcionais nas áreas de educação, saúde, infraestrutura e desenvolvimento tecnológico, e alerta que o mesmo cenário pode se repetir na Foz do Amazonas se não houver mudanças estruturais no modelo de gestão.

Para Sauer, não basta descobrir e autorizar a exploração da Margem Equatorial mantendo o paradigma atual, no qual apenas uma parcela relativamente pequena da riqueza gerada chega a investimentos capazes de transformar o país; é imprescindível criar um mecanismo que direcione uma maior fatia da renda para setores prioritários como educação, saúde e tecnologia.

Com informacoes de G1.

Tainá Ribeiro Alves

Sobre o Autor: Tainá Ribeiro Alves

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