Desafio de Produzir Fertilizantes no Brasil
O avanço do Profert no Congresso reacende uma discussão estratégica para o agronegócio brasileiro: por que um dos maiores consumidores de fertilizantes do mundo ainda depende da importação de cerca de 90% desses insumos? A resposta vai além da falta de incentivos públicos, passando por um conceito formulado há quase 250 anos por Adam Smith: a chamada “mão invisível do mercado”.
Smith defendia que, quando existe demanda e liberdade econômica, os investimentos tendem a buscar naturalmente as melhores oportunidades. O capital se dirige para onde há possibilidade de retorno. Se essa lógica bastasse, o Brasil já teria se tornado um grande produtor de fertilizantes há muito tempo. Poucos países têm um mercado consumidor tão grande e tão estável quanto o nosso.
Mas a mão invisível não ignora custos. Durante décadas, investidores fizeram uma conta objetiva: produzir fertilizantes no Brasil ou importar? Na maioria das vezes, importar mostrou-se mais competitivo. Mas porque produzir aqui continua sendo caro. O Brasil afasta o capital que deveria atrair. Juros elevados, carga tributária complexa, logística deficiente, licenciamento demorado e insegurança jurídica tornam o investimento produtivo mais difícil.
Soma-se a isso um ambiente de negócios que, há anos, coloca o Brasil em posições pouco favoráveis nos rankings internacionais de competitividade. Nesse cenário, a mão invisível fez exatamente aquilo que Adam Smith descreveu: direcionou investimentos para locais onde o retorno era maior e os riscos menores. Por isso, o Profert merece uma análise que vá além do anúncio dos recursos.
O programa faz parte de um diagnóstico correto. O Brasil precisa reduzir sua vulnerabilidade externa. A guerra entre Rússia e Ucrânia mostrou como a dependência de fertilizantes pode representar um risco para toda a cadeia agrícola. No entanto, como já mostramos anteriormente, a redução de 8,6% nas importações de matérias-primas de fertilizantes no primeiro semestre de 2026 pode ser uma chance para o setor nacional.
Programa público não substitui ambiente de negócios. Incentivos financeiros, isoladamente, conseguem compensar problemas estruturais que permanecem há décadas? Uma fábrica de fertilizantes exige investimento bilionário e retorno de longo prazo. Nenhum investidor toma essa decisão olhando apenas para um programa de governo. Ele observa custo do financiamento, previsibilidade tributária, infraestrutura, segurança regulatória e rentabilidade esperada.
Se esses fatores continuam desfavoráveis, o capital continuará procurando alternativas mais competitivas. Essa é a principal lição da mão invisível do mercado. Ela não cria investimentos por decreto. Ela responde ao ambiente econômico. O verdadeiro desafio do Profert talvez não seja apenas estimular a produção de fertilizantes. É contribuir para um país onde produzir volte a fazer sentido.
Quando o ambiente econômico funciona, não é preciso convencer empresários a investir. Eles próprios enxergam a oportunidade. No fim, a maior política industrial continua sendo a construção de um ambiente de negócios competitivo, com juros compatíveis, sistema tributário racional, infraestrutura eficiente e segurança jurídica. Muitos dos problemas econômicos e sociais do Brasil nascem exatamente dessa dificuldade: o país tem demanda, mercado, produtores, necessidade e potencial, mas não consegue criar as condições para que a mão invisível atraia os investimentos necessários.
Com informacoes de Canal Rural.

