Caixa-preta de avião da Voepass revela piloto admitindo falha no sistema de degelo
A equipe do Fantástico teve acesso com exclusividade ao laudo da Polícia Federal (PF) sobre a queda do avião da Voepass, que matou 62 pessoas, em Vinhedo, no interior de São Paulo, em 2024. A investigação reconstruiu os últimos voos da aeronave e concluiu que havia uma sequência de falhas no sistema de degelo, conhecida pela tripulação e repetida em voos anteriores, sem que isso impedisse o avião de continuar operando.
No voo que antecedeu o acidente, entre Guarulhos e Cascavel, o comandante comenta sobre o gelo acumulado na aeronave. Conversa dos tripulantes na cabine da aeronave: Piloto: 'O lá o gelo... o gelo foi embora agora, finalmente. Escutei um barulho aqui, foi o gelo que voou.' Depois do pouso, aliviado, ele diz ao copiloto: Copiloto: 'Muito bom, comandante'.
Pouco tempo depois, a mesma aeronave decola novamente para o voo que terminaria em tragédia. Ainda na subida, surge o primeiro alerta crítico. Piloto: 'É o 'Airframe' que deu 'fault'... pode tirar, pode tirar... pelo menos a gente já sabe que tá...' Poucos segundos depois, enquanto os alertas continuam aparecendo, o comandante faz uma comparação que chama a atenção.
Copiloto: 'Olha a situação, se bem que não tá reportado isso aí, mas pra gente não pegar gelo teria que ir no 110, né?' Piloto: 'Foi só eu falar. O avião escutou. Esse avião parece aquele Fusquinha, Herbie lá... Herbie, filme bem antigo.' O piloto fez referência a Herbie, o carro do filme 'Se meu Fusca falasse' (1968). Na sequência, o copiloto demonstra preocupação com a rota.
Segundo a PF, naquele momento o alerta AIRFRAME FAULT indicava falha no sistema pneumático de degelo da aeronave. O procedimento previsto pelo fabricante determinava que a tripulação deixasse imediatamente a região de formação de gelo. Mas os dados do gravador de voo mostram que isso não aconteceu. Quase uma hora depois, quando o avião já se aproximava de São Paulo, a situação se agrava.
Em seguida, tenta acionar novamente o sistema de degelo. Piloto - 'Essa bosta não tá funcionando, né?' Esse alerta sonoro significa que o sistema da aeronave (o TAWS/GPWS – Terrain Awareness and Warning System) passou a emitir o aviso para que os pilotos interrompessem imediatamente a descida e elevassem o nariz da aeronave, porque havia risco iminente de colisão com o solo.
O comando de voz 'Pull up' é um dos alertas mais críticos da aviação. Ele não está relacionado ao gelo ou ao estol, mas sim à proximidade perigosa do terreno. Estol (do inglês stall) é a perda de sustentação de uma aeronave, causada pelo aumento excessivo do ângulo de ataque ou pela redução drástica da velocidade. Os computadores da aeronave começam a emitir uma cascata de alertas: Performance Degradada, Increase Speed e, logo depois, o alarme de estol.
Em menos de um minuto, o avião perde sustentação, entra em estol e depois em parafuso até atingir o solo. O Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) faz uma investigação sem apontar culpados, com objetivo de evitar que novos acidentes aconteçam. A PF faz perícia criminal visando eventual responsabilização penal, buscando indícios de crime e possíveis culpados.
O relatório da PF aponta que os pilotos deixaram de executar, no momento correto, procedimentos previstos pelo fabricante para falha no sistema de degelo, degradação de performance, condições severas de gelo e para a recuperação de estol. Havia um intervalo de aproximadamente 20 segundos entre o alerta Increase Speed e o início do parafuso, tempo em que ainda existia possibilidade de intervenção da tripulação.
Ao analisar os computadores de bordo, peritos descobriram que a mensagem AIRFRAME FAULT havia sido registrada no voo do acidente e em outros 3 voos anteriores. Em todos eles, as tripulações repetiram diversas vezes o mesmo procedimento: desligavam e ligavam o sistema de degelo numa tentativa de restaurar seu funcionamento. No voo anterior ao acidente, o PTB 2282, o alerta foi registrado oito vezes e o sistema passou por pelo menos cinco tentativas de reset.
Para a Polícia Federal, isso demonstra que o comandante já tinha conhecimento de que o sistema apresentava falhas intermitentes. Ainda assim, aceitou decolar novamente em uma rota onde havia previsão oficial de formação de gelo. O laudo afirma que, se essas falhas tivessem sido registradas formalmente pelas tripulações anteriores, a aeronave não poderia ter sido despachada para operar nessas condições, porque a Lista de Equipamentos Mínimos proíbe esse tipo de operação com o sistema de degelo inoperante.
Com informacoes de G1.

