Bugs de software: de mariposas a explosões de foguetes – como falhas de código se tornaram desastres históricos

Por Cosmo Ricardo Nunes em Rio Verde, GO 31/08/2026 20:31
Bugs de software: de mariposas a explosões de foguetes – como falhas de código se tornaram desastres históricos

Foto: via Olhar Digital

Todo mundo já viu um aplicativo travar, fechar e abrir novamente como se nada tivesse acontecido. Contudo, algumas falhas de programação não terminam assim: elas derrubaram foguetes, pararam bancos, cancelaram voos e, em casos extremos, mataram pessoas, ganhando o nome de bugs históricos de software.

Bug é um erro no código de um programa. O software executa exatamente o que foi escrito — só que o que foi escrito não era o que o programador pretendia. O computador não erra; ele obedece. O termo virou lenda por causa de uma mariposa presa em um computador da Universidade de Harvard em 1947, anotada pela equipe de Grace Hopper. Apesar disso, a palavra “bug” para falhas técnicas já era usada bem antes, inclusive por Thomas Edison.

Cinco desastres que mudaram as regras da engenharia: Mariner 1 (1962) – a sonda da NASA foi destruída poucos minutos após o lançamento devido a um erro em uma fórmula transcrita para o código, um símbolo faltando; Therac‑25 – máquina de radioterapia aplicou doses muito acima do previsto, provocando mortes; o problema surgia quando o operador digitava comandos muito rápido, revelando uma condição rara no software; Ariane 5 – o foguete europeu explodiu cerca de 40 segundos após a decolagem porque o código de navegação, reaproveitado do modelo anterior mais lento, não suportou os novos números, gerando prejuízo estimado em US$ 370 milhões; Mars Climate Orbiter – a sonda se perdeu porque duas equipes usavam sistemas de medida diferentes – uma em unidades métricas, outra em imperiais; Bug do milênio (Y2K) – sistemas antigos guardavam o ano com apenas dois dígitos, de modo que a virada para 2000 poderia ser lida como 1900, levando governos e empresas a gastarem entre US$ 300 e 600 bilhões para corrigir o problema antes da data.

É tentador achar que esses erros pertencem à era dos computadores de fita magnética, mas não. Em 2012, a corretora Knight Capital perdeu US$ 460 milhões em minutos por causa de um código antigo reativado por engano. Em julho de 2024, uma atualização defeituosa da empresa de segurança CrowdStrike travou milhões de computadores com Windows em todo o mundo, afetando aeroportos, hospitais e bancos. Quanto mais o mundo depende de software, maior o estrago que uma linha errada pode causar.

Cada desastre gerou novas normas: após o Therac‑25, a área de saúde passou a exigir travas físicas além das digitais em equipamentos médicos; depois do Ariane 5, tornou‑se padrão testar código reaproveitado nas condições reais do novo projeto; após o Y2K, empresas aprenderam a mapear sistemas legados antes que eles quebrem. Existe um raciocínio comum a todos os casos: o problema quase nunca foi só o programador; faltou revisão, teste e a pergunta “e se der errado?”. Por isso, os bugs históricos continuam sendo estudados em cursos de engenharia de software, servindo como memória de uma indústria ainda jovem.

Sem essa memória, o mesmo erro volta – só que em um sistema maior, mais rápido e com mais gente dependendo dele. Da próxima vez que um app travar no seu celular, lembre‑se: você está diante de um parente distante e inofensivo de acidentes que já custaram vidas e foguetes inteiros. Como já mostramos na cobertura do James Webb, a confiabilidade de softwares críticos para missões espaciais é fundamental.

Com informacoes de Olhar Digital.

Cosmo Ricardo Nunes

Sobre o Autor: Cosmo Ricardo Nunes

Cosmo é o olho do MOTNAF.NEWS voltado pro infinito. De lançamentos da NASA e SpaceX a buracos negros, eclipses, missões a Marte e as descobertas que mudam nossa visão do universo, ele traduz o que rola lá em cima numa linguagem que qualquer terráqueo entende. Se aconteceu no espaço, o Cosmo já está de telescópio apontado.