Bancos brasileiros elevam provisões e adotam postura cautelosa em cenário econômico incerto

Por Tainá Ribeiro Alves em Rio Verde, GO 20/08/2026 15:20
Bancos brasileiros elevam provisões e adotam postura cautelosa em cenário econômico incerto

Foto: via Estadão

O aperto no orçamento das famílias brasileiras tem se intensificado: após quitar despesas básicas e dívidas, resta pouco para consumo adicional ou investimento.

Os principais bancos do país reforçaram suas estratégias para enfrentar a deterioração do mercado de crédito, mesmo com o Banco Central iniciando o ciclo de corte da taxa Selic. Os efeitos inflacionários decorrentes da guerra no Oriente Médio e o desequilíbrio das contas públicas têm retardado o alívio monetário, mantendo a Selic em patamar restritivo e elevando o comprometimento de renda dos domicílios.

Para se proteger em um horizonte mais turvo, Banco do Brasil, Bradesco, Itaú Unibanco e Santander alocaram, no primeiro semestre, R$ 91,082 bilhões em provisões contra devedores duvidosos (PDD). Esse valor representa um crescimento de 23 % em relação ao mesmo período do ano anterior, considerando um cálculo que exclui valores já recuperados – método conhecido como custo de crédito.

A piora está concentrada, em grande parte, no agronegócio, que enfrenta uma “tempestade perfeita” de volatilidade nos preços de insumos e os impactos de um El Niño severo. Há também sinais de pressão nas carteiras de pessoas físicas, sobretudo entre os consumidores de baixa renda.

O governo lançou o programa Desenrola, destinado a incentivar a renegociação de débitos, mas as medidas tiveram efeito limitado na qualidade dos ativos das instituições financeiras.

Em rankings de inteligência artificial na América Latina, Nubank, Itaú, Bradesco e Banco do Brasil aparecem entre os bancos mais avançados.

O Goldman Sachs reduziu o preço‑alvo para os bancos brasileiros, apontando resultados mais fracos no segundo trimestre.

“Observamos movimentos preocupantes nas linhas de crédito emergenciais e nas taxas rotativas”, declarou Everton Gonçalves, diretor de Economia, Regulação e Produtos da Associação Brasileira de Bancos (ABBC). “A deterioração do emprego e da atividade leva as instituições a adotarem maior cautela na concessão de crédito, alterando a percepção de risco.”

No Santander, o indicador que mede atrasos superiores a 90 dias encerrou junho em 3,3 %, alta de 0,7 ponto percentual em relação ao ano anterior. A instituição tem reorientado o perfil da carteira para linhas mais seguras e foco na alta renda, mas analistas acreditam que os benefícios só se refletirão a partir do próximo ano.

Durante a teleconferência de resultados, o diretor financeiro Carlos Muñiz apresentou diagnóstico franco: mudanças contábeis explicam o aumento de 11,5 % nas despesas com PDD, que totalizaram R$ 7,7 bilhões no trimestre. Ele também reconheceu o impacto do ambiente macroeconômico mais apertado e afirmou que a reorganização do mix de crédito manterá as provisões elevadas ao menos até o final deste ano. “Não estou otimista pessoalmente”, disse Muñiz, acrescentando que, se fosse para definir uma data para a melhora nas PDD, seria “no começo de 2027, mais do que no final de 2026”. Ele conduziu a teleconferência em substituição ao recém‑nomeado CEO Gilson Finkelsztain, ex‑B3.

No Banco do Brasil, a maior carteira – a rural – continua a registrar aumento da inadimplência, que fechou junho em 5,61 %, impulsionada pelos atrasos no setor agropecuário. O vice‑presidente de Gestão Financeira e Relações com Investidores, Geovanne Tobias, atribuiu parte desse cenário à Medida Provisória de repactuação de R$ 100 bilhões em débitos rurais, que teria incentivado produtores a suspender pagamentos na expectativa de condições mais favoráveis, configurando risco moral. O banco público desembolsou R$ 18,5 bilhões em provisões contra calotes no segundo trimestre, alta de 16,1 % em termos líquidos comparado ao ano anterior. Tobias espera que, com a MP em vigor, esses volumes recuem no segundo semestre e converjam para a meta de R$ 65 bilhões a R$ 70 bilhões, alertando que “não cairá pela metade”.

Além do agronegócio, o BB registrou deterioração nas carteiras de pessoas físicas: a inadimplência em cartões de crédito subiu mais de 7 pontos percentuais no trimestre, alcançando 14,58 %. Muitos produtores rurais são também clientes pessoa física, de modo que a pressão se “migra” entre as carteiras. O banco observa ainda um aumento no reparcelamento de faturas por um público mais amplo.

O Bradesco também enfrentou aumento da inadimplência entre pessoas físicas, porém em nível consideravelmente inferior ao do Banco do Brasil.

Com informacoes de Estadão.

Tainá Ribeiro Alves

Sobre o Autor: Tainá Ribeiro Alves

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